Feeds:
Posts
Comentários

Por uma sexualidade livre

(Veiculado na Ilustrada no dia 26 de janeiro. Segue o link para assinantes do jornal ou da uol: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/quadrin/f32601201001.htm )

@DaniloGentili “Sou contra políticos irem no SuperPop. Aquele programa é conhecido por putas darem seus depoimentos. Não seus filhos”.

(Post do apresentador do CQC no Twitter).

Sou uma defensora do humor. Acredito que nas piadas, nos chistes, nas brincadeiras, temos a possibilidade de expressar conteúdos, desejos e preconceitos inconscientes. Se a piada tem graça é um sinal de que o piadista e o risonho tem aquele mesmo desejo/preconceito velado, partilham do mesmo código cultural. Neste sentido, acho um des-serviço a patrulha, a vigília, a busca do politicamente correto pois, para mim, estas são oportunidades importantes de se perceber o que esta por trás do nosso discurso como sociedade. Ou seja, o que desejamos? O que consideramos diferente ou inferior a nós?

Pois bem, percebo nestas duas supostas piadas o mesmo preconceito, ou melhor, o mesmo ódio contra a sexualidade feminina. O que me leva a crer que precisamos jogar mais luz na forma como a mulher é hoje retratada/percebida/anunciada no Brasil (e no mundo, evidentemente). Na charge, o não cabimento do desejo feminino é explícito. Não cabe a uma mulher expressar desejo sexual. Se ela ousa, ela merece apanhar. Ou pior, nem se entende o que ela pede, “mulher não pode gostar de sexo”, portanto ser tocada deve querer dizer ser tocada com violência, e quanto mais melhor. “Toda mulher gosta de apanhar”. Não era isso?

Já Danilo nem se referia a mulher, o alvo de seu ataque eram os políticos. Ou seja, é tão banalizado o tratamento de mulheres como putas (as que ousam transar e ganhar algo, dinheiro no caso) que serve de trampolim para uma outra “piada”.

Pausa para refletir sobre o nosso fascínio como sociedade pelas tais “putas”. Nem me refiro aqui às profissionais de fato, que trariam um capítulo a parte, mas às tais “putas” midiatizadas. Mulheres que exploram o próprio corpo, a própria beleza para aparecerem, ou para serem, já que em nossa cultura ser é ser visto na televisão. Elas fascinam, elas são invejadas (não são poucas as mulheres que buscam o mesmo corpo que a “gostosa da tv”) mas são tachadas de burras, de vulgares, de interesseiras, de venderem seu corpo por fama, por dinheiro, ou seja, são “putas”. Nossa cultura diz o tempo todo para as meninas e mulheres qual é o único bem que elas podem ter: seus corpos. Corpos cada vez mais esqueléticos ou corpos volumosos de horas de academia. No entanto, cobramos o preço: use isso, mas não muito. Se é “gostosa”, não é inteligente. Faça gozar, mas não goze você. Desperte desejo, mas apanhe.

Acredito que esta será a próxima e necessária revolução sexual feminina: o direito ao sexo, a uma sexualidade livre, não patrulhada. Neste dia não haverá graça ou horror nenhum em uma mulher propor uma relação sexual, ou em se sentir bem com seu corpo gordo, magro, pequeno, loiro ou vesgo. Certamente teremos mais peles e peitos e pênis na televisão e bem menos armas, guerras, medos.

Por Daniele Ricieri

Aborto no Brasil

A cada dia que passa percebo como é terrível conviver com preconceitos e discriminações não assumidas. Quando a coisa é sutilmente camuflada, fica muito mais difícil de lutar contra, pois quem defende o fim de uma coisa que “não existe” é bem maluca, não?

Essa semana ouvi de uma pessoa que admiro (ou admirava) muito que uma mulher tem igual condição de denunciar um assédio moral e um assédio sexual… Não adiantou eu argumentar falando da vergonha e medo que as mulheres têm em denuciar situações de assédio sexual (o caso em questão era de um chefe de departamento que costuma fazer elogios do tipo “sensual” e “gostosinha” às suas funcionárias, além de convidá-las para sair). Também não adiantou eu lembrar que comumente a culpa de sofrer um abuso ou assédio é jogada sobre a vítima, quando quem está de fora comenta “também, fica usando essa blusa decotada…”.

Estou a quase um ano tentando levantar a discussão de gênero dentro da cooperativa de teatro onde eu trabalho e só encontro empecilhos no caminho… Porque será?

O fato é que para a maioria das pessoas desse país, ou melhor, para todas aquelas que não são sensíveis à questão de gênero, está tudo bem com as mulheres e quem diz o contrário são as insistentes malas feministas.

A pauta do aborto no Programa Nacional de Direitos Humanos do nosso governão é um ótimo exemplo disso: já caiu! Novamente os direitos humanos das mulheres é rechaçado, a criminalização de uma prática corrente deve ser mantida e quem não pode pagar por um boa clínica clandestina que responda a processo ou morra de hemorragia.

Como falar em direitos humanos quando se nega à mulher o livre arbítrio sobre o próprio corpo??? Ainda mais em um Estado que (deveria ser) laico, onde não cabe, portanto, o argumento religioso de que um embrião “já é uma vidinha”.

Estima-se que todos os anos 250 mil mulheres são internadas, só na rede pública, em consequência de gestações interrompidas de forma insegura em clínicas clandestinas, o que torna o aborto a quarta principal causa de morte materna no país. Quantas mortes mais precisarão engrossar esses números para o país olhar com seriedade essa questão?

leia mais no site Agência Patrícia Galvão

Maysa Lepique

Não sou feminista. Não milito no movimento feminista.
A afirmação ainda ecoa e traz uma forte reflexão sobre o posicionamento que adotamos em relação ao nosso trabalho.
Dizer que fazemos um teatro feminista ou que somos um coletivo de mulheres interessadas em denunciar violências contra mulher, ao mesmo tempo que nos dá identidade e agrega parcerias, provoca estranhamento e revela preconceitos, visões antigas e equivocadas sobre o assunto.
Durante o ciclo de lançamento do livro PEÇA PARA MULHERES – História e poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira, principalmente na Livraria da Vila onde fizemos um bate papo e na roda de conversa do Teatro Coletivo, ficou evidente como a discussão a cerca da situação contemporânea da mulher é polêmica, séria, necessária e rechaçada.
Mais do que interesse pelo projeto ATUADORAS em si, as pessoas que participaram desses eventos tinham interesse em saber de suas razões de ser e de suas conseqüências, como por exemplo, a restrição de público no espetáculo mulher a vida inteira – apresentado exclusivamente para mulheres. O princípio da discussão parece ser motivado pela curiosidade, mas aos poucos, uma identidade entre mulheres acontece e a cumplicidade entorno do assunto se estabelece.
É nesse momento que o leque de abordagens se amplia e ganha dimensões imprevistas pelas proponentes da discussão. Pois, as mulheres iniciam sempre seus posicionamentos a partir de suas experiências de vida. E todas – regra que parece não ter exceção – têm uma experiência para ser compartilhada, transformando questões privadas em problemas sociais e coletivos.
O nome que damos a atitude de reivindicar direitos, denunciar violências, e até mesmo perceber diferenças sem sentido, como naturalizações de comportamentos socialmente construídos, não interessa de fato. Militar no movimento feminista…
Mas o que é o movimento feminista hoje?
Muito diferente do que um movimento datado e radical, o feminismo vem, ao longo dos anos, contracenando com o mundo onde vivem as mulheres, com as dificuldades que temos que encarar por sermos mulheres. E, se movimento é a coletivização de ações e ideais, no caso das mulheres, ele é mais que necessário, pois nossa voz ouvida solitariamente não tem valor algum! E não interessa de onde falamos.
Ao reclamar a falta de uma dramaturgia com personagens femininas, estamos reclamando a falta de um lugar na história da literatura e da arte dramática.
Ao criar espetáculos que tenham como protagonistas mulheres perseguidas e sumidas durante a ditadura militar no Brasil, estamos jogando luz nos silêncios da história.
Ao definir a religião como inimiga, estamos definindo um campo de ação.
Ao filmar depoimentos de mulheres e organizá-los em um documentário, estamos dando voz às mulheres, publicizando histórias de vida que revelam uma condição social do tempo em que vivemos.
Assim, nossa bandeira é nossa própria obra. Mais do que lançar manifestos e participar de passeatas, nos interessa o contato profundo que a arte é capaz de provocar, nos interessa o florescimento de cada relação estabelecida a partir de uma experiência compartilhada.
Acreditamos – e temos tido retorno positivo dessa crença – que brigar pela transformação do mundo em que vivemos em um lugar mais justo, humano e solidário, passa pela transformação de cada corpo de um grupo social. É preciso que eu identifique realidades impostas onde estou imersa, questionando minha própria atuação.
É preciso desnaturalizar o papel de vítima, a fragilidade, a incapacidade de organização coletiva, o instinto maternal e amoroso. Nada disso é natural da mulher.
É preciso que eu mate o “papai do céu” e seja solidária às “mamães da terra”, é preciso romper com esse conceito burguês de paz assistida por câmeras de segurança que só garantem a manutenção de um estado de ameaça, onde cada ser não deve ser diferente do padrão estabelecido e vendido.
Sabendo das múltiplas possibilidades de construção da minha identidade, posso compor o coletivo no momento da ação.
Não há lugar proibido às mulheres. Mas estamos faltando em diversos lugares, inclusive no lugar de plenitude de gozo dos direitos humanos.

Maysa Lepique

O livro Peça para Mulheres – História e Poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira pode ser comprado na Livraria da Vila em São Paulo, pelo site www.editoraesfera.com.br (em breve) ou escrevendo um email para nós.

Se você preferir pode obter o pdf do livro gratuitamente. É só nos escrever um email.

Nosso email: atuadoras@gmail.com

Termina neste sábado, dia 03 de outubro, o ciclo de lançamento do livro
PEÇA PARA MULHERES – História e poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira
Estaremos na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, esperando você, para uma tarde de música e poesia!

Av. Henrique Schaumann, 777
Das 17h00 às 20h00

biblioteca

Mulheres da Cena

mulheres da cena

Dando continuidade ao ciclo de lançamento do livro PEÇA PARA MULHERES – História e poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira, as ATUADORAS e Kiwi Companhia de Teatro convidam para a roda de conversa

MULHERES DA CENA

Uma arena aberta onde mulheres e homens ocupam o espaço livremente para debatermos sobre a mulher e a cena teatral contemporânea. Mais do que um tema, queremos propor perguntas ou provocações que estimulem o bate papo.

Algumas mulheres especialmente convidadas – Aglaia Pusch, Bárbara Araújo, Eliana Bolanho, Graciela Rodriguez, Iná Camargo Costa – darão início à conversa, mas as pessoas da plateia, conforme sentirem vontade, poderão ocupar lugar nessa arena e contribuir com suas reflexões e perguntas.

São questões que nos instigam:

- O Feminismo ainda tem espaço na cena contemporânea ou é questão ultrapassada?

A questão de gênero é pertinente no “meio teatral” hoje?

- Que relações de poder entre gêneros se estabelecem no mundo da arte? Os homens ocupam funções mais determinantes na cadeia produtiva de um espetáculo de teatro? Por que existem uma quantidade pouco expressiva de mulheres em comissões de notório saber?

- É possível pensar na libertação/emancipação das mulheres dentro do mundo capitalista?

Dia 28/09 – segunda feira

Teatro Coletivo

Rua da Consolação, 1623

Arena aberta (sala 2) das 20h00 às 22h30

É com alegria de mais um filho parido que as ATUADORAS convidam para o lançamento do livro:

PEÇA PARA MULHERES – História e poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira


A publicação é fruto de projeto contemplado pela Secretaria de Estado da Cultura – ProAC 2008.

No dia 24 de setembro, estaremos na Livraria da Vila a partir das 18h30 e esperamos você para um brinde e um bate papo.

Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Coquetel das 18h30 às 21h30
Bate papo com as autoras a partir das 19h00

convite

INtolerância

TOLERÂNCIA foi o tema o último mixtoquente da casadalapa.

Nós propusemos uma intervenção áudio visual que contou também com depoimentos escritos. Na instalação (realizada com a super força de Julio Dojcsar), a pessoa sentava-se em frente a uma TV e escolhia qual vídeo queria ver (abaixo) e também podia ler o depoimento escrito de uma terceira mulher. Sobre a mesa, deixamos folhas em branco e caneta e recebemos mais outros depoimentos espontâneos ao longo do dia.

Quando a privacidade do lar legitima violências

Quando o silêncio perpetua abusos e discriminações

Quando toleramos porque não vemos

É hora de arrombar a porta

INtolerância

Gestação

foto cima 25

Garantindo um registro histórico de seu trabalho, as ATUADORAS nesse momento estão produzindo um livro!

Em pouco tempo de existência, depois de realizar o projeto “mulher a vida inteira – diálogos de atuadoras” quando pudemos apresentar gratuitamente nossa primeira peça para cerca de 1200 mulheres da cidade de São Paulo e região, depois de realizar algumas intervenções (presenciais, virtuais, áudio visuais), de viajar para Bahia, para Los Angeles… Não é pouco para um grupo de mulheres que enfrenta grande dificuldade de obter recursos que viabilizem o trabalho!

Vamos publicar um pequeno livro de arte.

O objeto principal do livro são as poesias criadas coletivamente pelas mulheres que assistiram à peça. Contextualizando essas pérolas da nossa Cora, contamos sobre o processo de criação do espetáculo “mulher a vida inteira” e aproveitamos para publicar também o texto da peça.

O pão está no forno! Eu e Dani estamos mergulhadas no texto, apoiadas por colaboradoras e (veja só!) um colaborador que nos ajudam a avaliar criticamente a fluência, contundência e organização literária. Enquanto isso, Vana explora fotos, retalhos, anotações, software e cria a arte do livro. Jhaíra apresenta as poesias, afinal é dela a nossa cora. E temos Amelinha Teles assinando o prefácio.

Enquanto mais essa obra das ATUADORAS toma corpo, meu corpo também ganha novas curvas. Vamos juntas gestando frutos que desejamos que sejam robustos, perenes e que contracenem corajosos com o mundo que os receberá. Que os filhos frutos façam diferença para o bem.

O livro é resultado do edital ProAC Publicação de Livro de Arte, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo.

Maysa Lepique

Postagens Antigas »