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Para refletir…

20 jan

O “Boa noite Cinderela” do BBB

17 jan

Abuso sexual. No mínimo, foi isso o que ocorreu na 12a edição do Big Brother Brasil. Os vídeos já foram tirados do ar pela Rede Globo, mas para quem viu, a cena é clara: depois de uma festa com muito álcool, uma das participantes, Monique, aparece jogada em uma cama. Ela está bêbada e praticamente inconsciente quando um outro “brother” (engraçado, meu conceito de irmandade nada tem a ver com isso) deita-se ao seu lado e, embaixo do edredom, começa a fazer movimentos que remetem a sexo.

É óbvio que não é possível dizer se houve penetração, mas não há dúvidas de que pelo menos ela foi bolinada – e muito – em um momento em que não tinha condições de interagir. Monique fica simplesmente largada enquanto Daniel usa e abusa de seu corpo. E isso pode sim ser considerado estupro, por mais que Boninho e cia. tentem negar.

Segundo o artigo 213 da lei 12.015, de 2009, é estupro “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. (E, pelo que me orientaram depois da publicação inicial do post, também é preciso mencionar o artigo 215, que fala sobre violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável na modalidade em que a vítima está impossibilitada, por outro meio, de oferecer resistência, e o artigo 217-A)

Aliás, da maneira como ocorreu no BBB, me lembra até aquele golpe do “Boa noite Cinderela”, em que alguém põe um medicamento na bebida de outra pessoa até que ela quase desmaie e a estupra.

Não é possível que tal situação grotesca, e ainda por cima transmitida ao vivo para todo o Brasil, passe incólume, como se nada tivesse acontecido! Isso é crime, pessoal! É preciso dizer com todas as letras que está errado o que ocorreu! Aquela mulher foi sim violentada em seu direito de preservar o seu corpo.

E, a meu ver, a Rede Globo deveria ser a primeira a se colocar dessa maneira, denunciando e expulsando o participante, dando apoio à outra brother e mostrando para a sociedade que isso não pode se repetir.

Só que, cá entre nós, não deve ser nada fácil admitir que essa situação ocorreu porque os executivos dessa emissora, em busca de audiência, decidiram colocar pessoas dentro de um esquema de confinamento, enchendo-as de álcool, para ver o que acontecia, não é? Como ratinhos de laboratório do comportamento humano.

Deu no que deu. Imperou o machismo e a violência. E agora, pelo jeito, a condescendência. Lamentável, absurdo, surreal.

Por Maíra Kubík em http://mairakubik.wordpress.com/2012/01/15/o-boa-noite-cinderela-do-bbb/

o que diz o professor

18 dez

Acabo de registrar a reclamação abaixo no site do cursinho pré vestibular onde estou matriculada.

Reclamação referente ao professor de inglês DANIEL A.

Durante a aula, apresentando determinado conteúdo, o professor Daniel A. disse:

– Eu bato na minha mulher na cabeça, na perna, nas costas…

Imediatamente perguntei: “Professor, você disse que bate na sua mulher?” e ele, sorrindo, respondeu “Sim!”. Eu disse que bater em mulher é crime e que ele não devia fazer brincadeira com isso. Ele parou por um minuto, sorriu. Vários alunos começaram a rir e alguém comentou “mas se ela gosta de apanhar…” e o professor acenou com a cabeça em consentimento. Depois disse que falaria a aula toda sobre como ele odeia sua mulher, mas meu comentário o deixara constrangido. Então, eu disse que ele podia seguir com sua aula e me retirei, ao que ele agradeceu!

Acho totalmente inadmissível que uma instituição de ensino fique indiferente a uma situação como essa, afinal um professor é modelo para seus alunos, ainda mais quando são adolescentes e o professor é jovem, simpático e a identificação pode ser muito forte. O que o professor Daniel A. fez foi incitar a violência contra a mulher, ainda mais ontem, quando a mídia noticiou a pena do goleiro Bruno de apenas 4 anos!!! A violência contra a mulher vem crescendo assustadoramente e com graus de crueldade absurdos. Este é um assunto extremamente sério de violação de direitos humanos que não pode ser, de modo algum, tratado como brincadeira, ainda mais dentro de uma sala de aula.

Aguardo um posicionamento da instituição em relação ao ocorrido o mais breve possível. Maysa Lepique

Não é incrível???

O blog das ATUADORAS publicará a resposta da instituição.

“Que da hora…” ou O CRIME DO ESTADO

14 out

Na primeira cena da peça vemos duas atrizes entretidas com uma infinidade de utensílios domésticos – ferro de passar, batedeira, panela, talheres, secador de cabelo, espelho, bacias – e objetos femininos – pulseiras, colares. O músico pontua com a percussão os sons de tanta atividade. A cena se desenrola num crescendo, a movimentação das atrizes vai ficando cada vez mais frenética e compulsiva, os sons tornam-se um ruído sufocante.

Ao meu lado uma moça de uns 17 anos com os olhos vidrados na cena exclama baixinho repetidas vezes “Que da hora…”.

Fim da ação, as atrizes são aplaudidas em cena aberta pelas 60 jovens internas da Fundação Casa Chiquinha Gonzaga na Mooca.

Essa apresentação de Carne faz parte das atividades do projeto CARNE – PATRIARCADO E CAPITALISMO da Kiwi Cia de Teatro, contemplada pela 17a. edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e que eu tive o prazer de acompanhar.

Prazer???

As meninas vestem calça de moletom e camiseta branca, a maioria está de meia e chinelo. O nome escrito na meia. Logo percebe-se que há uma moda no jeito de arrumar o cabelo: faixinha – branca, rosa ou lilás – quase na testa, rabo de cavalo e uma franja de lado perto do olho. O cheiro de perfume e creme invadem a sala junto com as meninas.

Quando a peça começa percebo que algumas estão bem pouco simpáticas à atividade – aquela recusa de saída que tem qualquer adolescente. Mas nenhuma resiste ao convite das atrizes que revelam nosso cotidiano de mulher cena após cena. Em pouco tempo estavam todas ultra envolvidas, olhos quentes, comentários, risadas e aplausos.

Alguns momentos foram especialmente marcantes pra mim e acabam por revelar de onde vem o crime que fazem as meninas cumprirem pena nesta casa de “acolhida”. Explico.

Apesar de já ter visto a cena diversas vezes, ainda fico tomada durante o discurso sobre a ocupação do espaço público pela mulher entrecortado pelo choro de um bebê. Minha identificação com a contradição de sentimentos é imediata. Mas nessa tarde, ao meu redor, as lágrimas não vinham de identificação, mas de saudades… Muitas daquelas meninas já são mães. Ouvir aquele chorinho de bebê, com certeza, fez seus corpos ficarem frios e vazios. A vida ali começou bem cedo e a dureza da maturidade adiantada era revelada na reação calada e triste da jovem “infratora”.

A peça continua e os comentários de quem saca tudo e sabe muito bem do que fala a peça aumentam.

A cena agora é engraçada, as atrizes cantam músicas de cunho machista – Amélia, Garota Carioca, A nega lá em casa e por aí vai. Terminam com “Ai que mulher indigesta, indigesta. Merece um tijolo na testa!”. Todas riem muito, até que uma delas se vira para trás e comenta “É… não é mole, não. Vocês tão rindo de quê?”.

Se há consenso de que não é fácil ser mulher num mundo onde o machismo é tão incorporado à cultura que parece que ele não existe mais, imagina se essa mulher é uma adolescente em condições sociais precárias.

O crime pode ser opção, mas pode ser a única saída também. O castigo deve existir para inibir uma próxima investida ou para dar alternativas ao apelo do ganho fácil e arriscado, ao ganho infrator?

A maioria das meninas é presa (sim, presa) por tráfico de drogas – assim como nas casas de acolhida de meninos, assim como nas penitenciárias –, a reincidência é gigante e uma das assistentes pedagógicas diz que não vê relação com esse elevado índice de reincidência e o programa pedagógico que executa ali. Esse quadro parece não fazer o menor sentido!

Assim como há justificativas médicas, científicas e de saúde pública para a legalização do aborto, há também para a legalização das drogas, com a regulamentação do seu uso, produção e venda autorizadas com controle estatal, cobrança de impostos e tudo o mais.

Se esse é o maior crime cometido pelas/os infratoras/es brasileiras/os, parece que um primeiro passo para solução está bem na nossa frente.

Ao mesmo tempo, é impossível não perceber a inutilidade do sistema carcerário do nosso país! É óbvio que a experiência das meninas dentro da tal “casa de acolhida” está relacionada com a vida que terão saindo dali. Curso de artesanato não interessa e nem sustenta uma menina de 16, 17 anos!

E supondo que a jovem leve jeito para o artesanato, aprenda algumas técnicas durante seu tempo de “castigo” e voltando às ruas, queira vender suas obras em feiras livres da cidade. Não conseguirá… A prefeitura exige ficha de antecedentes criminais para autorizar a participação de expositores em feiras púbicas.

Quem é o criminoso aqui? Está claro: é o estado!

Por negligência com a população mais carente, por fingir que tem algum tipo de programa de “reabilitação” de cidadãs e cidadãos infratoras/es, por alimentar a perseverança do maior crime que acontece nesse país e que mata principalmente a população mais pobre e, finalmente, por fomentar a imagem de que as pessoas mais pobres, a população de rua, são coisas feias das cidades que merecem desaparecer nos mega projetos de revitalização do espaço público– processo que vivenciamos cotidianamente em São Paulo.

A situação de confinamento é questionável e só poderia ser útil se o tempo passado atrás das grades trouxesse, de fato, alguma perspectiva futura para aquelas jovens. Coisa que, infelizmente, está longe de acontecer.

Maysa Lepique

www.kiwiciadeteatro.com.br

Geni e os rottweilers

15 jul

Já faz algumas semanas que homens e mulheres repercutem o noticiário em suas conversas informais falando sobre a morte de Eliza Samudio, a ex-namorada do goleiro Bruno. Como pessoas civilizadas que somos, especialmente nos primeiros momentos de uma conversa, começa-se o assunto destacando como o crime foi bárbaro e lembrando o interlocutor de um ou outro detalhe mórbido do como teria sido o assassinato.

Partindo deste início convencional, as conversas tomam vários outros rumos. Queremos destacar dois deles.

Algumas pessoas ao contarem a história dão destaque para o ponto comercial do incidente: fazem as contas para saber quanto o Flamengo perderá com o escândalo. Lembram que assim que a suspeita de assassinato veio à tona, o clube carioca prontamente contratou um dos melhores advogados da cidade para proteger seu jogador. Afinal, é assim que os times ganham dinheiro: investem em um talento e depois vendem o passe para outro clube. Ficando a importante questão: quanto perde o Flamengo?

O outro destino da análise de cada um/uma da morte de Eliza é ainda mais comum que o anterior: o questionamento do caráter da vítima. E é neste ponto que vamos nos debruçar um pouco.

“Nada justifica o que foi feito mas…”.

Mas “ela era uma garota de programa”.

Mas “essas mulheres escolhem o momento em que estão ovulando para sair com estes caras”.

Mas “era uma interesseira”.

Mas “ela não era flor-que-se-cheire”.

Mas “ela engravidou de propósito”.

Mas “ela gostou da fama”.

E tantos outros “mas”.

Evidentemente culpar a vítima ou levantar suspeitas a respeito de seu caráter não é uma estratégia nova. Sobretudo quando a insinuação parte do algoz.

Ficando aqui uma provocação: do que nos defendemos quando nos associamos aos amigos de Bruno e consideramos que, de alguma forma, Eliza mereceu morrer? Não temos motivos pessoais para desejar nada de mal a Eliza. Talvez isso nos leve a pensar que não é de Eliza que nos defendemos e sim, do que este triste fato diz sobre nós coletivamente.

Uma das hipóteses possíveis seria pensarmos que aquele-tipo-de-mulher revela as fraquezas de um-tipo-de-homem que não queremos ver ameaçado. Para que tudo se mantenha como está nas nossas vidas e sociedade (mesmo estando ruim até demais) temos que considerar que as mulheres exercem de tal forma um poder macabro sobre os homens, poder do qual eles não têm defesa – não porque sejam fracos, mas porque “são só humanos” – que merecem ser punidas.

Este episódio Bruno e sua ex-namorada em algum lugar ecoa em nós que um homem está constantemente lutando contra tentações, portanto é um herói e que as mulheres são as culpadas caso eles falhem. Se ele procurou uma amante, sua mulher não deveria ser boa de cama. Se ele foi infiel à esposa, sua amante deve tê-lo enlouquecido. Se ele engravidou uma mulher, ela deve ter feito de propósito. Se ele não é maduro o suficiente para se responsabilizar por seus atos, ela mereceu morrer.

Talvez seja insuportável, na nossa sociedade patriarcal e machista, olharmos para as falhas destes homens. Mais fácil escolher a culpada.

Por Daniele Ricieri

Luta, substantivo feminino!

3 abr

A ministra Nilcéa Freire da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), lançaram nao dia 25 de março, o livro ‘Luta substantivo feminino’ que retrata as histórias de mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura’. O evento fez parte das celebrações do mês internacional da mulher  e contou com apoio da Editora Caros Amigos.

No enveto, a ministra Nilcéia Freire destacou a relevância desta publicação para o resgate do papel da mulher em momentos importantes da história brasileira, como na luta pelo restabelecimento da democracia no país. “Se nos impuséssemos o exercício de mapear os dez nomes que mais aparecem nos livros de história, dificilmente aparecerá um de mulher entre eles. (…) O relato oficial sobre a nossa trajetória como nação é estritamente masculino; nos retratos oficiais, nossos heróis têm, quase sempre, barba e bigode”.

Luta, substantivo feminino – O livro reúne os perfis de 45 mulheres assassinadas ou desaparecidas e outras 27 sobreviventes de diferentes organizações de resistência à ditadura militar ocorrida (1964-1985). Os casos foram julgados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos em quinze anos de atividade. A obra ainda traz informações sobre as circunstâncias em que essas mortes e desaparecimentos ocorreram. Algumas dessas mulheres estavam grávidas, outras amamentavam, todas foram torturadas e, não raro estupradas.

A coluna de Hildegard Angel no Jornal do Brasil da última sexta feira apresentou parte de alguns depoimentos do livro. Copio dois aqui:

Rose Nogueira: “Sobe depressa, ‘Miss Brasil’, dizia o otrturado enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ’40 dias’ do parto. (…) ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’ disse ele. (…) Riram mais ainda quando ele veio pra cima de mim e abriu o meu vestido. Segurei os seios, o leite escorreu. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele (delegado Fleury) ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar louco. O torturador zombava: ‘Esse leitinho, o nenê não vai ter mais'”.

Maria Amélia: “Fomos levados diretamente para Oban. Eu vi que quem comandava a operação do alto da escada era o corenel Ustra. Subi dois degraus e disse: ‘Isso que vocês estão fazedo é um absurdo’. Ele disse ‘Foda-se, sua terrorista’. (…) Me amarram na cadeira do dragão, nua, e me deram choque no ânus, na vagina, no umbingo, no seio, na boca, no ouvido. (…) Mas com certeza a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala quando eu estava na cadeira do dragão. Eu estava nua, toda urinada por conta dos choques.”

Terremotos para as haitianas

3 abr

do blog Viva Mulher

23.03.10

Nas ruas do Haiti, estupros e medo

(…) busquei saber mais sobre as condições das mulheres após o terremoto que deixou 1 milhão de desabrigados. Descobri, com tristeza, que o estupro é sim uma constante, mas praticado pelos próprios haitianos. Um dos maiores problemas está nos campos de refugiados. São acampamentos com espaço totalmente limitado: os “quartos” são separados por lençóis, a segurança é escassa e a privacidade, praticamente nula. Os banhos são tomados a céu aberto e na frente de todos.

Uma reportagem em vídeo da rede de TV americana CNN explicita bem essa realidade. Na matéria, uma das entrevistadas afirma que não é difícil as freqüentes agressões verbais se tornarem físicas. A situação lá, diz ela, é “cada um por si”. Antes do terremoto existiam centros de aconselhamento e serviços de apoio às vítimas de estupros, como acontece em boa parte do mundo ocidental. Hoje, porém, o auxílio se resume a distribuir lanternas para caminhar à noite de forma mais “protegida”.

No último mês, cerca de 20 violações desse tipo foram registradas, mas estima-se que o número seja bem maior, pois muitas mulheres sentem-se inseguras em levar adiante denúncias. Para aquelas que conseguem chegar a um hospital, o tratamento é apenas para as dores do corpo, não da alma. E tudo é feito com muita rapidez: é preciso dar lugar a novos feridos. Liesl Gerntholtz, coordenadora de um centro de monitoramento dos direitos humanos, relata ter conhecido uma mulher que, após ser espancada e estuprada por cinco homens, recebeu cuidados médicos e, em seguida, foi obrigada a voltar para as ruas. Sem amigos ou parentes – a maioria foi morta na tragédia –, ela se viu sozinha numa situação desesperadora.

Enquanto esteve no Haiti, Gerntholtz visitou 15 campos de refugiado e testemunhou outros quatro estupros feitos por gangues. Ouvi de um amigo jornalista que foi cobrir o pós-terremoto que esses grupos organizados aterrorizam mesmo as mulheres. Durante sua passagem por lá, um comandante brasileiro lhe contou que alguns homens utilizam canos de metal durante os atos de violência sexual para machucar ainda mais suas vítimas.

É um cenário aterrador. Já não basta ter que reconstruir edifícios e infra-estruturas mínimas, será preciso também reconstruir as almas e os corpos das mulheres haitianas, talvez ainda mais devastados que o próprio país. Será que é possível?

Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h11

Mulheres presas por pequenos furtos

11 mar

Estréia documentário Bagatela
Na próxima sexta-feira, 12/03,  22h30, estréia na TV Cultura

Um crime de bagatela, do ponto de vista jurídico, é aquele que envolve valores insignificantes. O documentário acompanha a história de Maria Aparecida e Sueli, mulheres presas por pequenos furtos, e de Sônia Drigo, uma advogada que, voluntariamente, se propôs a defendê-las. Maria foi presa pela tentativa de furto de um xampu e um condicionador de R$24,00 e perdeu a vião de um olho na cadeia. Sueli tentou furtar um queijo e dois pacotes de bolachas, no valor de R$30,00, e passou quase dois anos presa.

Ficha Técnica

Duração: 52 minutos

Autora e Diretora: Clara Ramos

Co-produção: Clara Ramos | Pólo de Imagem | Fundação Padre Anchieta – TV Cultura

doctv.cultura.gov.br

INtolerância

25 jun

TOLERÂNCIA foi o tema o último mixtoquente da casadalapa.

Nós propusemos uma intervenção áudio visual que contou também com depoimentos escritos. Na instalação (realizada com a super força de Julio Dojcsar), a pessoa sentava-se em frente a uma TV e escolhia qual vídeo queria ver (abaixo) e também podia ler o depoimento escrito de uma terceira mulher. Sobre a mesa, deixamos folhas em branco e caneta e recebemos mais outros depoimentos espontâneos ao longo do dia.

Quando a privacidade do lar legitima violências

Quando o silêncio perpetua abusos e discriminações

Quando toleramos porque não vemos

É hora de arrombar a porta

INtolerância

8 de março por Miriam Leitão

9 mar

Fiquei emocionada ao ler o texto de Miriam Leitão sobre o 8 de março e ia colar aqui um único parágrafo. No entanto, como o texto aborda o assunto da menina de Recife – assunto que ainda não tínhamos tratado nesse blog – posto o texto, que é excelente, na íntegra.

A seguir:

Dia da mulher

Seja feliz, menina!

Anoitece no dia da Mulher e este silêncio do blog não é falta do que dizer. É tristeza. O caso da menina de Recife foi devastador. Não, ninguém ignora quantas meninas são vitimas da violência em suas próprias casas. Os algozes são os pais, padrastos, pessoas que deveriam estar ensinando e protegendo. Os números são muitos, os casos que aparecem na imprensa são frequentes. Mas a menina de Pernambuco doeu mais.

Talvez  por ter apenas nove anos, por estar sendo estuprada desde os seis, ou porque a chantagem do padrasto era que mataria a mãe. Ou talvez porque ela é bem pequena, menor do que deveria ser para a sua idade. A menina passou anos vendo a irmã também abusada. Só a mãe das duas nada via. O que acontece que cega as mães?

A menina de Recife lembra o quanto a luta da mulher será longa. Recentemente a Sharia, um código tribal brutalmente contra a mulher,  foi restabelecida em todo o Paquistão. Acaba qualquer chance de que não aconteçam casos como a da escritora do livro Desonrada, Mukhtar Mai, que foi condenada a ser estuprada publicamente porque seu irmão de 12 anos teria olhado para uma mulher de casta “superior”. O suplicio de Mukhtar, com estupro público e múltiplo, só não foi mais intenso que sua força de superação. A história dessa paquistanesa choca e emociona, mas a notícia de que a Sharia, que tinha começado a ser suprimida no Paquistão, volta a ser usada em todo o país é um choque. Penso em Mukhtar naquela pequena aldeia onde ela decidiu morar e resistir com uma escola para meninas e meninos.

Normalmente eu gosto de escrever nos dias oito de março, de quanto avançamos, mostrando estatísticas de conquistas, e de quanto falta avançar, mostrando as diferenças salariais, o pequeno percentual de mulheres no poder em qualquer país, as discriminações, mas aí… veio a menina de Recife.

Ela simplesmente me enfraquece. Que números de avanços levantar para compensar essa violência?

Eu penso nela diariamente desde o dia da notícia. Não pela polêmica da Igreja Católica, porque a Igreja não me espanta. Que ela excomungue o médico, as enfermeiras, a mãe pela decisão de interrupção da gravidez  e que nada diga sobre o estuprador, não me surpreende. É apenas bizarro! Medieval.

Eu penso na menina de Recife e nos debates que tenho participado nos últimos anos, sempre em março. Nesses debates sempre discordo das mulheres bem sucedidas que dizem que a luta está ganha, que o feminismo é um movimento ultrapassado, ou outros equívocos assim. Eu, feminista, confesso, minha luta e meu espanto diante da incapacidade de ver o óbvio: que cinco mil anos de opressão não se acabam em poucas décadas, que há muito a fazer, a construir, a vigiar, para que haja algum dia respeito igual. Falta tanto para o dia em que  poderemos dizer que o feministro está superado!

Mas hoje, na verdade, eu penso apenas  no futuro dela: a menina curará suas feridas? Conseguirá entender e processar a violência de que foi vítima? Vai estudar, ter carreira, filhos? Vai conseguir amar um dia? Escapará das teias da reprodução da pobreza? Vai simplesmente reaprender a brincar, como deve fazer uma menina de nove anos?.

Eu podia dizer que ela desperta em mim uma fúria feminista. E é verdade, mas é uma verdade incompleta. Ela desperta em mim o o sonho de protegê-la de algum modo. De embalá-la docemente e contar uma história cheia de aventuras e graça. De cantar para ela uma cantiga de roda, de brincar de pique esconde em volta da casa.  De ir com ela ao cinema e comer pipoca sentada no degrau de uma escadaria. Que tal um sorvete para resfrescar o calorão?

Não sei o que é. Mas por alguma razão eu penso insistemente na menina de Recife neste dia da mulher. Penso com o coração. Eu apenas sonho que suas feridas se cicatrizem um dia.

O discurso feminista, com estatísticas e fatos eloquentes, eu o farei outro dia. Hoje eu apenas quero sonhar que a menina de Recife um dia, apesar de tudo, após tanta violência, será feliz.

do blog de Miriam Leitão, no site da CBN:

http://oglobo.globo.com/online/economia/miriam/