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Para refletir…

20 jan

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“Que da hora…” ou O CRIME DO ESTADO

14 out

Na primeira cena da peça vemos duas atrizes entretidas com uma infinidade de utensílios domésticos – ferro de passar, batedeira, panela, talheres, secador de cabelo, espelho, bacias – e objetos femininos – pulseiras, colares. O músico pontua com a percussão os sons de tanta atividade. A cena se desenrola num crescendo, a movimentação das atrizes vai ficando cada vez mais frenética e compulsiva, os sons tornam-se um ruído sufocante.

Ao meu lado uma moça de uns 17 anos com os olhos vidrados na cena exclama baixinho repetidas vezes “Que da hora…”.

Fim da ação, as atrizes são aplaudidas em cena aberta pelas 60 jovens internas da Fundação Casa Chiquinha Gonzaga na Mooca.

Essa apresentação de Carne faz parte das atividades do projeto CARNE – PATRIARCADO E CAPITALISMO da Kiwi Cia de Teatro, contemplada pela 17a. edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e que eu tive o prazer de acompanhar.

Prazer???

As meninas vestem calça de moletom e camiseta branca, a maioria está de meia e chinelo. O nome escrito na meia. Logo percebe-se que há uma moda no jeito de arrumar o cabelo: faixinha – branca, rosa ou lilás – quase na testa, rabo de cavalo e uma franja de lado perto do olho. O cheiro de perfume e creme invadem a sala junto com as meninas.

Quando a peça começa percebo que algumas estão bem pouco simpáticas à atividade – aquela recusa de saída que tem qualquer adolescente. Mas nenhuma resiste ao convite das atrizes que revelam nosso cotidiano de mulher cena após cena. Em pouco tempo estavam todas ultra envolvidas, olhos quentes, comentários, risadas e aplausos.

Alguns momentos foram especialmente marcantes pra mim e acabam por revelar de onde vem o crime que fazem as meninas cumprirem pena nesta casa de “acolhida”. Explico.

Apesar de já ter visto a cena diversas vezes, ainda fico tomada durante o discurso sobre a ocupação do espaço público pela mulher entrecortado pelo choro de um bebê. Minha identificação com a contradição de sentimentos é imediata. Mas nessa tarde, ao meu redor, as lágrimas não vinham de identificação, mas de saudades… Muitas daquelas meninas já são mães. Ouvir aquele chorinho de bebê, com certeza, fez seus corpos ficarem frios e vazios. A vida ali começou bem cedo e a dureza da maturidade adiantada era revelada na reação calada e triste da jovem “infratora”.

A peça continua e os comentários de quem saca tudo e sabe muito bem do que fala a peça aumentam.

A cena agora é engraçada, as atrizes cantam músicas de cunho machista – Amélia, Garota Carioca, A nega lá em casa e por aí vai. Terminam com “Ai que mulher indigesta, indigesta. Merece um tijolo na testa!”. Todas riem muito, até que uma delas se vira para trás e comenta “É… não é mole, não. Vocês tão rindo de quê?”.

Se há consenso de que não é fácil ser mulher num mundo onde o machismo é tão incorporado à cultura que parece que ele não existe mais, imagina se essa mulher é uma adolescente em condições sociais precárias.

O crime pode ser opção, mas pode ser a única saída também. O castigo deve existir para inibir uma próxima investida ou para dar alternativas ao apelo do ganho fácil e arriscado, ao ganho infrator?

A maioria das meninas é presa (sim, presa) por tráfico de drogas – assim como nas casas de acolhida de meninos, assim como nas penitenciárias –, a reincidência é gigante e uma das assistentes pedagógicas diz que não vê relação com esse elevado índice de reincidência e o programa pedagógico que executa ali. Esse quadro parece não fazer o menor sentido!

Assim como há justificativas médicas, científicas e de saúde pública para a legalização do aborto, há também para a legalização das drogas, com a regulamentação do seu uso, produção e venda autorizadas com controle estatal, cobrança de impostos e tudo o mais.

Se esse é o maior crime cometido pelas/os infratoras/es brasileiras/os, parece que um primeiro passo para solução está bem na nossa frente.

Ao mesmo tempo, é impossível não perceber a inutilidade do sistema carcerário do nosso país! É óbvio que a experiência das meninas dentro da tal “casa de acolhida” está relacionada com a vida que terão saindo dali. Curso de artesanato não interessa e nem sustenta uma menina de 16, 17 anos!

E supondo que a jovem leve jeito para o artesanato, aprenda algumas técnicas durante seu tempo de “castigo” e voltando às ruas, queira vender suas obras em feiras livres da cidade. Não conseguirá… A prefeitura exige ficha de antecedentes criminais para autorizar a participação de expositores em feiras púbicas.

Quem é o criminoso aqui? Está claro: é o estado!

Por negligência com a população mais carente, por fingir que tem algum tipo de programa de “reabilitação” de cidadãs e cidadãos infratoras/es, por alimentar a perseverança do maior crime que acontece nesse país e que mata principalmente a população mais pobre e, finalmente, por fomentar a imagem de que as pessoas mais pobres, a população de rua, são coisas feias das cidades que merecem desaparecer nos mega projetos de revitalização do espaço público– processo que vivenciamos cotidianamente em São Paulo.

A situação de confinamento é questionável e só poderia ser útil se o tempo passado atrás das grades trouxesse, de fato, alguma perspectiva futura para aquelas jovens. Coisa que, infelizmente, está longe de acontecer.

Maysa Lepique

www.kiwiciadeteatro.com.br

Mulheres presas por pequenos furtos

11 mar

Estréia documentário Bagatela
Na próxima sexta-feira, 12/03,  22h30, estréia na TV Cultura

Um crime de bagatela, do ponto de vista jurídico, é aquele que envolve valores insignificantes. O documentário acompanha a história de Maria Aparecida e Sueli, mulheres presas por pequenos furtos, e de Sônia Drigo, uma advogada que, voluntariamente, se propôs a defendê-las. Maria foi presa pela tentativa de furto de um xampu e um condicionador de R$24,00 e perdeu a vião de um olho na cadeia. Sueli tentou furtar um queijo e dois pacotes de bolachas, no valor de R$30,00, e passou quase dois anos presa.

Ficha Técnica

Duração: 52 minutos

Autora e Diretora: Clara Ramos

Co-produção: Clara Ramos | Pólo de Imagem | Fundação Padre Anchieta – TV Cultura

doctv.cultura.gov.br

Atuadoras na Penitenciária Feminina de Salvador

29 dez

No começo de dezembro, o elenco da peça Mulher a vida inteira realizou um evento na Penitenciária Feminina de Salvador, a convite da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, com apoio do Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministério da Cultura.

Foram 4 dias intensos de trabalho que começou com uma apresentação da nossa peça e terminou com outra apresentação, dessa vez de um grupo de 14 mulheres detentas na Penitenciária, resultado da oficina de três dias que oferecemos no presídeo.

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Nesse momento, a Penitenciária tem 130 mulheres internas, a maioria por tráfico de drogas, e aguarda reforma de ampliação – nas delegacias da cidade, mais de 70 mulheres esperam por uma vaga.

Há 9 anos, a pedagoga Silvana Maria Selem Gonçalves dirige a Penitenciária Feminina que oferece uma ampla variedade de cursos e atividades para as internas. Além disso, a unidade conta com duas celas para encontros íntimos das internas que antes de começarem a receber visitas de parceiros ou parceiras, passam por exames médicos e recebem aplicações de anti-concepcional (no caso de casais heterossexuais).

A administração da penitenciária fornece material para que as internas possam confeccionar e escolher o modelo de seus uniformes, todos amarelos. Mas, diferente do que vimos em São Paulo, quem cuida da cozinha é uma empresa terceirizada, uma vez que o trabalho não remunerado das internas é considerado trabalho escravo pela Comissão de Direitos Humanos.

A cidade de Salvador é escala de vôos que saem da América Latina em direção a Europa, por isso, há muitas mulheres estrangeiras na Penitenciária. A consequência disso é que nossa oficina foi falada em 4 línguas! Além do português: espanhol, inglês e francês. Argentinas, romenas, venezuelana, cabo-verdiana, brasileira casada com mulçumano e mulheres de Salvador que estão ali pelos mais diversos crimes.

A proposta da oficina era discutir a identidade da mulher e construir pequenas cenas baseadas em depoimentos pessoais para serem apresentadas ao final do período de trabalho. Partimos da costrução de um mapa onde as internas iam dizendo palavras que se relacionassem com nosso tema central a mulher.

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Mesmo com tanta diversidade, a discussão a respeito da identidade da mulher era coesa e o grupo todo concordava com a maioria das ponderações feita por cada uma.

Diferente da apatia que percebemos durante a apresentação da peça Mulher a vida inteira, o grupo que participou da oficina mostrou-se muito envolvido com a proposta, mesmo em número reduzido de mulheres.

O resultado que conquistamos juntas foi muito emocionante: um quarteto de cenas explorando os assuntos definidos pelo nosso mapa, introduzido por falas carregadas de identidade e cultura particular e fechado com uma canção africana sugerida pelas internas que cantam no coral.

Independente da quantidade de participantes, o fruto resultante da oficina é extremamente estimulante, pois revela como é acertada a avaliação das Atuadoras de que a mulher privada de sua liberdade usufrui profundamente de um trabalho que discuta sua identidade de mulher.

Maysa Lepique

Educadores do Arte na Casa discutem relações de gênero com coletivo ‘Atuadoras’

28 out

Educadores do projeto Arte na Casa, que a Ação Educativa e outras organizações parceiras realizam nas Unidades da Fundação Casa (SP) participaram na última sexta-feira, dia 24 de outubro, de uma formação sobre questões de gênero com o coletivo Atuadoras.

O objetivo do encontro foi promover, junto com os educadores, uma reflexão sobre as relações entre homens e mulheres e a sociedade, para que estas questões estejam presentes nos planejamentos de aula das oficinas. “Uma das preocupações do projeto Arte na casa é considerar a experiência de vida de cada pessoa. E pensar as relações entre homens e mulheres é valorizar a experiência de cada um e cada uma”, afirma a atuadora Maysa Lepique.

Para Gildean “Panikinho”, coordenador de área do projeto, os educadores agora ficam com a missão de levar esta reflexão para cada unidade. “Precisamos construir estas questões nas modalidades e formatos artísticos”, diz. “Mais do que isso, temos o papel de não reproduzir estas desigualdades e opressões nas relações de gênero no nosso fazer artístico”, afirma Fernanda Nascimento, também coordenadora de área.

“A oportunidade de nos encontrarmos para compartilharmos experiências e visões com foco na questão de gênero sempre se revela muito enriquecedora. Ainda mais em se tratando de um encontro com arte-educadores da Fundação Casa. O próximo projeto das Atuadoras “Das Grades às ruas” consiste justamente em dar visibilidade para as questões das mulheres e meninas encarceradas e com isso propor/pautar uma discussão na cidade sobre nossas formas de punir, e como pensar o sistema prisional com recorte de gênero”, conta a atuadora Daniele Ricieri.

“O desafio é colocar este tema não só nos conteúdos, mas na experiência das oficinas”, afirma Rodrigo Medeiros, coordenador técnico do projeto. “Precisamos refletir, por exemplo, porque é diferente trabalhar nas unidades femininas, perceber e relatar estas diferenças”, diz.

“É o inicio de uma bela parceria: podemos colaborar com o nossa visão sobre a diferença entre os gêneros e podemos aprender muito com a experiência destes artistas e educadores com a população encarcerada”, afirma Daniele.

As Atuadoras voltarão a realizar encontros com os educadores e farão apresentações da peça “Mulher a vida inteira” nas unidades femininas do projeto.

Por Michelle Prazeres

Cresce 77% número de presas no Brasil

5 ago

O Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) calculou que as mulheres ultrapassaram, em 75%, os homens no ritmo de prisões no país nos últimos oito anos. Influenciadas na maior parte das vezes pelo tráfico de drogas, elas engrossaram as estatísticas da população feminina nas cadeias em 77%. Há oito anos, 14,6 mil mulheres estavam encarceradas. No ano passado, o Depen registrou 25,8 mil. No mesmo período, o número de presos também cresceu, mas de maneira contida. Aumentou de 275,9 mil para 396,5 mil, um avanço de 44%. A previsão dos especialistas em segurança pública, segundo matéria publicada no jornal FOLHA DE SÃO PAULO, é de que em 2019 haverá 100 mil mulheres presas em todo o Brasil. Além de serem usadas pelo tráfico de drogas para transportar entorpecentes sem chamar tanto a atenção da polícia, outra causa que contrubui para o aumento expressivo das mulheres atrás das grades é a falta de penitenciárias. A maior parte das presas está confinada em cadeias públicas e delegacias, onde não há opções de trabalho, o que reduziria o tempo das penas.

Jornal METRO, 05 de agosto de 2008

Delícia de retorno!

22 jun

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São Paulo, 16 de junho de 2008.

A Pastoral Carcerária do Estado de São Paulo e o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania vem parabenizar as Mulheres Atuadoras pela peça Mulher A Vida Inteira!

Esta peça foi uma obra de arte que nossa equipe teve o  privilégio de assistir e participar junto com um grupo de detentas na penitenciária feminina de Sant’Ana em São Paulo.  A peça em si traz à tona uma série de realidades na vida da mulher e sem dúvida, chamou a atenção das mulheres que tiveram a oportunidade de assistir.

A Penitenciária, com mais que 2700 detentas, existe com um escassez quase total de atividades para as detentas, tanto aquelas aguardando julgamento quanto aquelas que já tem sentença.  Elas estão famintas para qualquer atividade, e ainda mais uma que consegue tirar-las um pouco do mesmice da prisão.

Quase sessenta detentas assistiram a peça, participaram na construção de uma poesia linda e emocionante, e depois, ficaram para refletir sobre a peça, o significativo dela e a importância de ter eventos assim no presídio.

A única tristeza é que foi a última apresentação, e para tentar chegar um número maior das mulheres, teria que ter pelo menos mais 6 apresentações (para chegar todos os pavilhões e alas) e há outras penitenciárias e projetos que também queriam assistir.  Sempre um sinal de uma coisa boa- quando a demanda supera por muito, a possibilidade!

Obrigada!  E esperamos que tenha como continuar este projeto tão importante e maravilhoso!

Heidi Ann Cerneka
Coordenadora da Pastoral Carcerária pela questão da Mulher Presa
E
Presidente do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania

“só temos a nossa palavra!”

30 maio

Em um lugar onde o som da voz é incapaz de atravessar o espaço entre as grades.

Já escrevi anteriormente sobre a experiência de visitar um presídeo, essa penitenciária feminina de Sant’Ana. Lembro que em nenhum momento fiquei tensa ou insegura antes ou durante a visita. Porém, a imagem da mulher atrás das grades não sai da minha cabeça.

Na noite anterior à nossa apresentação sonhei que estava presa e meu maior desespero era saber notícias do meu filho. Situação habitual ali dentro.

E a cena que mais emocionou as mulheres encarceradas foi a cena do nascimento – que geralmente recebe críticas por sugerir um ambiente mítico que não se sustenta no decorrer da peça ou por ser meramente biológica. Pois ali, onde as mulheres ficam totalmente privadas de seus vínculos familiares, privadas de suas filhas e filhos, a cena disse muito.

Quando chegamos, tivemos que passar todo o cenário e os equipamentos em revista. A funcionária que nos atendeu estava muito apressada e sua tensão apereceu nos olhos e gestos de cada uma de nós que estávamos ali para apresentar uma peça de teatro. Tudo liberado, inclusive nós, fomos levadas ao local da apresentação. Mas dessa vez, por fora dos pavilhões, longe das celas, chegando no “galpão do artesanato” por fora das grades.

Passamos por entulhos, espaços em reforma, outros parecendo estar abandonados, até que cruzamos o primeiro portão. Depois do segundo portão, um grande salão e subindo as escadas, nosso teatro do dia.

O cenário chegou junto com a platéia. As mulheres chegaram para trabalhar no artesanato, umas sabiam da peça, outras não. Prontamente começaram a varrer o lugar e a nos ajudar a carregar nossas coisas.

As janelas só tinham as grades e pedaços de plástico bolha faziam a função de cortina. Depois das grades, podíamos ver o muro com um policial armado andando de um lado para o outro, as cercas, o páteo cercado por janelas. São cinco andares em três pavilhões com duas alas cada um. Duas mil e setecentas mulheres presas!

No galpão do artesanato, por volta de 70 mulheres.

Tudo montado, o único homem (um agente policial) convidado a sair, iniciamos a peça.

Aí, todo o contexto, todas as grades, aqueles uniformes, tudo ficou menor do que o brilho e a fome daqueles olhos em cima de nós. A vida que pulsava ali era mais intensa do que vivenciei em muitas outras apresentações (do lado de fora das grades). E mais uma vez sentia com muita clareza: somos todas iguais!

E nesse mundo absurdo em que vivemos, conseguir escapar dessas grades é exceção.

Maysa Lepique

“Mulheres são burras”, diz diretor do departamento penitenciário

26 maio

Diretor do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, Maurício Kuehne culpa as próprias mulheres pelo fato de 62% das presas do país não receberem nenhum tipo de visita social.
“Vou usar uma explicação simplista e que me perdoem as mulheres: é que as mulheres são burras”, disse Kuehne, ao ser questionado pela Folha se há uma explicação para esse percentual.
“Elas [mulheres] vão visitar os homens [presos], mas, quando elas são encarceradas, os homens não vão visitá-las. É uma questão de cultura machista”, completou.
Segundo o diretor do Depen, o baixo índice de visitação nos estabelecimentos para mulheres influencia diretamente no dia-a-dia do estabelecimento. “Influencia, porque a pessoa que não tem essa relação familiar, sua agressividade vai cada vez mais se acentuando. E a dele também, o homem agressivo nos estabelecimentos penais é justamente por conta disso, de não ter o apoio familiar.”
Segundo ele, 80% dos homens presos recebem visitas sociais. “Os que não recebem é porque a penitenciária é distante, e a família não tem recursos [para o deslocamento].”
No ano passado, o governo federal repassou R$ 210 milhões aos Estados, para ações específicas para o sistema penitenciário. Para 2008, estão previstos R$ 520 milhões. “[Esse valor] é um reconhecimento explícito, por parte do governo federal, de que precisa dar mais auxílio aos Estados. Só que esse auxílio ainda é pouco. Ele não vai resolver o problema carcerário dos Estados.”
Para a juíza Dora Martins, presidente do conselho-executivo da AJD (Associação Juízes para a Democracia), algumas burocracias também têm dificultado as visitas sociais às mulheres, como a exigência, em alguns estabelecimentos, de que as crianças estejam acompanhadas por aquele que tem a sua guarda. Um simples familiar, por exemplo, às vezes não é suficiente.
“Num domingo, na porta de uma penitenciária masculina e de uma feminina, você já percebe essa diferença. É um corte de gênero. Mas dentro da administração [penitenciária] há uma série de impedimentos. Elas [presas] se queixam de não receber a visita das crianças [filhos]”, afirma a juíza Martins.
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

FOLHA DE SÃO PAULO

Apenas 9% das presas têm visita íntima

26 maio

Levantamento feito em presídios femininos aponta que 62% das mulheres presas no país não recebem visitas sociais
Segundo o governo federal, quadro nos estabelecimentos penais masculinos é bem diferente: 20% dos presos não recebem visitas sociais

Um raio-X nos estabelecimentos penais femininos do país revela que 62% das mulheres presas não recebem visitas sociais. O isolamento é ainda mais nítido em visitas íntimas: apenas 9% das presas recebem esse tipo de visita. Segundo o governo federal, o quadro nos estabelecimentos penais masculinos é bem diferente. Neles, o índice de presos que não recebem visitas sociais é de 20% -uma diferença de quase 70% em relação às mulheres presas.
Os dados sobre as mulheres encarceradas constam de recente levantamento do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), órgão vinculado ao Ministério da Justiça e que reuniu os dados a partir de questionários respondidos pelos governos estaduais. Segundo o documento “Mulheres Encarceradas – Diagnóstico da Realidade”, hoje, 70% dos estabelecimentos penais (mistos ou exclusivos de mulheres) no país permitem a visita íntima.
“A visita íntima ainda passa pelo preconceito, por ainda termos uma sociedade muito machista. O homem talvez se sinta envergonhado de visitar a mulher e ter com ela um relacionamento íntimo na prisão, enquanto as mulheres vão [aos presídios] e se casam com os homens”, afirma a juíza Dora Martins, presidente do conselho executivo da AJD (Associação Juízes para a Democracia).
“Quando a mulher entra no presídio, é mais ou menos como assinar um divórcio. Os homens não são tão fiéis como as mulheres”, diz o padre Günter Zgudic, coordenador da Pastoral Carcerária Nacional.
Há, hoje, cerca de 27 mil presas no Brasil, distribuídas em 508 estabelecimentos penais, sendo 58 deles exclusivos para as mulheres. Na maioria dos estabelecimentos, a situação é precária: só 27% deles contam com celas especiais para o isolamento da presa (o chamado “seguro”) -como o ocupado, hoje, por Anna Carolina Jatobá na penitenciária feminina de Tremembé (interior de SP).
Ainda segundo o relatório do Depen obtido pela Folha, 35% dos estabelecimentos com mulheres têm médico de plantão; 25%, atividades educacionais; 19%, berçário; e 16%, creches.
“Lamentavelmente, não há a observância da Lei de Execução Penal, e os Estados, parece, fazem questão de ignorá-la. Os estabelecimentos penais, como regra, não são dotados dos requisitos contidos na lei”, afirma o diretor do Depen, Maurício Kuehne. “O quadro, como um todo, é triste. Chegamos a um ponto em que o quadro atual não pode persistir, precisa ser melhorado.”
O que acontece muitas vezes, segundo o governo, é que presídios construídos para homens são desativados e, depois, transformados em locais para abrigar mulheres -ou seja, sem a estrutura adequada às necessidades femininas.
“O quadro é caótico. As mulheres [presas] são afastadas dos filhos. A maioria das unidades prisionais aparta a criança da mãe como um bicho da fêmea. Essa criança é colocada num abrigo, e a mãe nem sabe onde ela está”, diz Elisabete Pereira, diretora da Subsecretaria de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. “Não há tempo de preparar a separação ou para que a mãe acione alguém da família para assumir essa criança.”
Para minimizar tal quadro, a União passou a condicionar o repasse de verbas aos Estados às contrapartidas desses governos ao Plano Diretor do Sistema Penitenciário. Nele, há 22 metas para curto, médio e longo prazos -como assistência à saúde e à educação e profissionalização de presos e presas.
O levantamento do Depen também identificou um perfil das mulheres presas semelhante ao dos presos: 60% delas são negras (contra 55% dos homens e de 49% da população total negra do país), 27% têm entre 18 anos e 24 anos (contra 31% dos homens) e 44% possuem o ensino fundamental incompleto (40% dos homens).

EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

FOLHA DE SÃO PAULO