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Lutemos por direitos iguais e deveres compartilhados!

8 mar

O Mamaço! Protesto contra censura à amamentação em local público.

11 maio
Gabriel Pinheiro – Estadão.com.br

SÃO PAULO – Um grupo de mães organiza pelo Facebook um “mamaço” no Itaú Cultural da Avenida Paulista. Em março, uma mulher foi impedida de amamentar seu bebê em uma exposição no local. “Estava com meus dois filhos, um de dois anos e outro de dois meses. O menor acordou, pediu para mamar. Enquanto amamentava, rapidamente uma monitora me alertou que era proibido dar de mamar naquele espaço”, disse a antropóloga Marina Barão, de 29 anos. “Reagi com espanto. Sem graça, a funcionária me levou à enfermaria dos bombeiros para que amamentasse lá”, acrescenta.

Segundo Marina, a monitoria afirmou que os funcionários haviam sido orientados a não permitir que mães amamentassem na exposição, apenas na enfermaria. “Ela disse que era ordem superior. Fui pega desprevenida, falei que aquilo era contra os direitos da criança, mas ela pediu que a acompanhasse, senão chamaria um segurança.”

Enquanto tentavam localizar a chefe dos bombeiros para abrir a enfermaria, a criança chorava. “Demorou uns 10 minutos. Não podia mais esperar, acabei amamentando meu filho na escada. A monitora então ficou olhando para os lados, preocupada se alguém visse”, disse a mãe.

De acordo com a antropóloga, depois que a mobilização na internet começou, o Itaú Cultural enviou desculpas ao grupo. Ela afirmou ter aceito a retratação, mas o protesto – marcado para o dia 12 – será mantido. “Acho bacana as desculpas, nossa intenção não é guerra. Mas vamos fazer o ato pela importância da amamentação materna, para que isso não seja um ato mal visto socialmente”, completa.

O Itaú Cultural reconhece que houve um “erro de orientação”. “Dizemos aos monitores que as pessoas não podem se alimentar no espaço das exposições. Neste caso, o funcionário pôs a regra em prática. Foi uma orientação imprecisa”, disse o diretor da entidade, Eduardo Saron. “Além de pedir desculpas às mães no Facebook, chamei nossa equipe e rediscutimos as medidas de atendimento ao público. Tomamos como aprendizado.”

Saron afirma que se o “mamaço” se concretizar, o Itaú Cultural vai “abraçar o ato”. “Vejo a mobilização com bons olhos. Se as mães forem, vamos preparar uma programação especial, dizer que somos abertos a todos.”

Feliz Vida das Mulheres!

8 maio

Desejo a todas as mães: Feliz dia das super-heroínas! Mulheres aventureiras, otimistas, visionárias, tarefeiras e trabalhadoras, muito trabalhadoras.

Desejo a todas as mulheres: Feliz vida de super-heroínas! Mulheres que estão em todo lugar, em todas as funções, que são ou não são mães, que querem ou não querem compor uma família, que sabem ou não sabem cozinhar, que são ou não são intuitivas, que são ou não são sensíveis.

Desejo que a gente consiga reconhecer as amarras que nos prendem aos velhos e falidos modelos de sociedade.

Desejo que a gente não se acostume com as duplas e triplas jornadas, já que nossas conquistas de direitos ainda estão aquém do compartilhamento de deveres.

Desejo que a gente tenha coragem de dizer sim e não com total certeza de que nossas opções estão alinhadas com nossos desejos, sonhos e possibilidades.

Desejo que a gente consiga viver nos desafiando a criar e propor novas formas de relação, de educação, de afeto, de trabalho, de sociedade.

Desejo que agente perceba as crianças como potenciais transformadoras do mundo e caminhe com elas na conquista de instrumentos que nos ajudem a alcançar nosso ideal.

Desejo que a gente respire livremente!

Desejo que a gente possa participar da construção de um mundo onde a gente não precise ser mais super-heroínas!

Desejo que a gente seja mulher. Mulher feliz, por ser mulher e só!

Maysa Lepique

“Que da hora…” ou O CRIME DO ESTADO

14 out

Na primeira cena da peça vemos duas atrizes entretidas com uma infinidade de utensílios domésticos – ferro de passar, batedeira, panela, talheres, secador de cabelo, espelho, bacias – e objetos femininos – pulseiras, colares. O músico pontua com a percussão os sons de tanta atividade. A cena se desenrola num crescendo, a movimentação das atrizes vai ficando cada vez mais frenética e compulsiva, os sons tornam-se um ruído sufocante.

Ao meu lado uma moça de uns 17 anos com os olhos vidrados na cena exclama baixinho repetidas vezes “Que da hora…”.

Fim da ação, as atrizes são aplaudidas em cena aberta pelas 60 jovens internas da Fundação Casa Chiquinha Gonzaga na Mooca.

Essa apresentação de Carne faz parte das atividades do projeto CARNE – PATRIARCADO E CAPITALISMO da Kiwi Cia de Teatro, contemplada pela 17a. edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e que eu tive o prazer de acompanhar.

Prazer???

As meninas vestem calça de moletom e camiseta branca, a maioria está de meia e chinelo. O nome escrito na meia. Logo percebe-se que há uma moda no jeito de arrumar o cabelo: faixinha – branca, rosa ou lilás – quase na testa, rabo de cavalo e uma franja de lado perto do olho. O cheiro de perfume e creme invadem a sala junto com as meninas.

Quando a peça começa percebo que algumas estão bem pouco simpáticas à atividade – aquela recusa de saída que tem qualquer adolescente. Mas nenhuma resiste ao convite das atrizes que revelam nosso cotidiano de mulher cena após cena. Em pouco tempo estavam todas ultra envolvidas, olhos quentes, comentários, risadas e aplausos.

Alguns momentos foram especialmente marcantes pra mim e acabam por revelar de onde vem o crime que fazem as meninas cumprirem pena nesta casa de “acolhida”. Explico.

Apesar de já ter visto a cena diversas vezes, ainda fico tomada durante o discurso sobre a ocupação do espaço público pela mulher entrecortado pelo choro de um bebê. Minha identificação com a contradição de sentimentos é imediata. Mas nessa tarde, ao meu redor, as lágrimas não vinham de identificação, mas de saudades… Muitas daquelas meninas já são mães. Ouvir aquele chorinho de bebê, com certeza, fez seus corpos ficarem frios e vazios. A vida ali começou bem cedo e a dureza da maturidade adiantada era revelada na reação calada e triste da jovem “infratora”.

A peça continua e os comentários de quem saca tudo e sabe muito bem do que fala a peça aumentam.

A cena agora é engraçada, as atrizes cantam músicas de cunho machista – Amélia, Garota Carioca, A nega lá em casa e por aí vai. Terminam com “Ai que mulher indigesta, indigesta. Merece um tijolo na testa!”. Todas riem muito, até que uma delas se vira para trás e comenta “É… não é mole, não. Vocês tão rindo de quê?”.

Se há consenso de que não é fácil ser mulher num mundo onde o machismo é tão incorporado à cultura que parece que ele não existe mais, imagina se essa mulher é uma adolescente em condições sociais precárias.

O crime pode ser opção, mas pode ser a única saída também. O castigo deve existir para inibir uma próxima investida ou para dar alternativas ao apelo do ganho fácil e arriscado, ao ganho infrator?

A maioria das meninas é presa (sim, presa) por tráfico de drogas – assim como nas casas de acolhida de meninos, assim como nas penitenciárias –, a reincidência é gigante e uma das assistentes pedagógicas diz que não vê relação com esse elevado índice de reincidência e o programa pedagógico que executa ali. Esse quadro parece não fazer o menor sentido!

Assim como há justificativas médicas, científicas e de saúde pública para a legalização do aborto, há também para a legalização das drogas, com a regulamentação do seu uso, produção e venda autorizadas com controle estatal, cobrança de impostos e tudo o mais.

Se esse é o maior crime cometido pelas/os infratoras/es brasileiras/os, parece que um primeiro passo para solução está bem na nossa frente.

Ao mesmo tempo, é impossível não perceber a inutilidade do sistema carcerário do nosso país! É óbvio que a experiência das meninas dentro da tal “casa de acolhida” está relacionada com a vida que terão saindo dali. Curso de artesanato não interessa e nem sustenta uma menina de 16, 17 anos!

E supondo que a jovem leve jeito para o artesanato, aprenda algumas técnicas durante seu tempo de “castigo” e voltando às ruas, queira vender suas obras em feiras livres da cidade. Não conseguirá… A prefeitura exige ficha de antecedentes criminais para autorizar a participação de expositores em feiras púbicas.

Quem é o criminoso aqui? Está claro: é o estado!

Por negligência com a população mais carente, por fingir que tem algum tipo de programa de “reabilitação” de cidadãs e cidadãos infratoras/es, por alimentar a perseverança do maior crime que acontece nesse país e que mata principalmente a população mais pobre e, finalmente, por fomentar a imagem de que as pessoas mais pobres, a população de rua, são coisas feias das cidades que merecem desaparecer nos mega projetos de revitalização do espaço público– processo que vivenciamos cotidianamente em São Paulo.

A situação de confinamento é questionável e só poderia ser útil se o tempo passado atrás das grades trouxesse, de fato, alguma perspectiva futura para aquelas jovens. Coisa que, infelizmente, está longe de acontecer.

Maysa Lepique

www.kiwiciadeteatro.com.br

A menina quer estudar. Mamãe quer trabalhar. É possível?!

9 ago

A vida doméstica nos amarra. Seguem dois exemplos:

filme de Marcio Ramos

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. Nesse mundo onde a mulher além de ser ótima mãe, presente, carinhosa, atenta, provedora de cuidados e educação também trabalha fora de casa, essa afirmação faz todo o sentido.
A maternidade, muitas vezes, parece incompatível com qualquer trabalho que não seja o doméstico. Há mulheres – cada vez menos, mas ainda há – que escolhem ficar em casa cuidando da cria e abandonam, por um tempo ou definitivamente, sua vida profissional.
Mas há muitas outras – umas porque precisam pagar as contas de casa e não têm opção e outras porque gostam – que não deixam seus trabalhos e aí que a coisa complica.
O trabalho, muitas vezes, pode ser estimulante e prazeroso. E o cuidado com as crianças pode ser igualmente prazeroso e gratificante. O que mata é a rotina.
Chego em casa às 19hs30 depois de quase duas horas de trânsito nessa cidade torturante. Helena já está dormindo. Chico espera para jantar. Ele deveria ir dormir às 20hs30, ela também. Bom, hoje, por conta do meu atraso, vamos ter que lidar com a troca de horários.
Janto com Francisco e lá pelas tantas tenho que apressá-lo, pois vai passar do horário de dormir – antes do sono, história e música. O pequeno se apressa e quando está terminando, Helena acorda.
Corro até o quarto e a encontro toda animada em pé no berço. Certo: vamos preparar a mamadeira e tentar conciliar o ritual dos dois.
Escovar os dentes do Chico, colocar o pijama, trocar a fralda da Helena e colocar seu pijama. Hoje teremos que pular a história, pois só nisso já chegamos em 20hs40…
Francisco reclama, mas compreende, doce que é. Helena, no entanto, depois de tomar toda a mamadeira ouvindo a música que já embalou seu irmão, está super acordada e briga pra não dormir.
Tento em vão niná-la. Continuo a música, ando com ela no colo pelo quarto, deixo tudo bem escurinho. Nada.
Pego o sling, mudo de quarto, tudo escuro e chupeta. Nada.
Coloco a bichinha no berço “abraçada” no travesseiro como seu pai indicou. Nada. Aí é que ela fica brava pra valer e começa a chorar. O colo é uma exigência.
Penso nos trabalhos que iria fazer assim que os dois dormissem, fico aflita, minhas costas começam a doer.
Sento com ela no colo e balanço como uma cadeira. Nada.
Desisto. Desço com ela e tento fazer alguma coisa que me distraia por uns minutos e a deixe mais sonada. Ela parece cada vez mais elétrica. Até que faz um coco. Ah… coitadinha… Estava com dor de barriga e eu achando que a menina lutava contra o sono… Assim começa o nível 1 da culpa: a mãe não entende sua bebê.
Subo com ela, troco a fralda, conversamos. Ela me olha nos olhos, profundamente. Sinto um amor delicioso, profundo e admirado. Como é comunicativa minha pequena de 9 meses!
Como é doce e linda! Pego-a de novo nos braços com carinho e cuidado, brinco com ela e digo que agora sim, hora de dormir.
Apago novamente as luzes e escolho uma outra música.

Nada! Ah!!!!
Ainda agitada, ainda empurrando com as pernas, agora está claro: luta mesmo contra o sono!
Já são quase 22hs e Helena, com os olhos vermelhos e pequenos, não quer dormir! E eu preciso e QUERO trabalhar!
A culpa passa para o nível 2: depois de passar o dia fora de casa trabalhando, quero continuar trabalhando! Como pode???
Não aguento mais essa luta e coloco a pequena no berço. Ela chora. Primeiro é manha. Depois é choro pra valer.
Francisco continua dormindo pesado…
Sento no sofá da sala e penso que é preciso que algum pediatra me ajude nessa jornada noite adentro. Sim, pois depois que ela finalmente dormir, sei que acordará algumas vezes durante a noite. Então, mesmo conseguindo fazê-la dormir, fico tensa esperando o próximo chorinho.
A culpa então eleva-se ao nível 3: como é duro cuidar de um bebê!!! Como minha paciência é curta! Eu deveria adorar ficar ninando a bichinha até a hora em que, finalmente, ela dormisse. Sim, eu não deveria reclamar. E cadê o pai dessa criança que não está aqui para me socorrer???
O pai está trabalhando. Claro! Afinal, é a renda do trabalho dele que banca a maior parte do orçamento da família. Então é justo que a divisão seja essa.
E eu, que ganho bem menos, cuido mais das crianças. Bem, não é todo dia essa luta pra dormir. A maioria das vezes é muito mais tranquilo. A pequena mama e dorme junto com Francisco às 20hs30 e eu sigo no computador até ser arrebatada pelo frio e pelo cansaço.
Mas hoje, que preciso ler um projeto importante, preciso começar a escrever outro e publicar uma ação… não tenho energia para mais nada a não ser me jogar na cama. Assim vou adiando, vou deixando pra mais tarde a posibilidade de aumentar meus trabalhos, minha renda… Assim, mesmo conscientes e desejosos de novas possibilidades de constituição de uma família, seguimos reproduzindo o velho formato.

Maysa Lepique – tentando ser mãe, atriz, diretora da cooperativa de teatro, feminista, bem informada, crítica e saudável