Sabe quem pode mudar o mundo? Meninas!

23 out

Campanha Girl Effect

Ainda somente em inglês… Mas vale muito a pena assisitir:

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“Que da hora…” ou O CRIME DO ESTADO

14 out

Na primeira cena da peça vemos duas atrizes entretidas com uma infinidade de utensílios domésticos – ferro de passar, batedeira, panela, talheres, secador de cabelo, espelho, bacias – e objetos femininos – pulseiras, colares. O músico pontua com a percussão os sons de tanta atividade. A cena se desenrola num crescendo, a movimentação das atrizes vai ficando cada vez mais frenética e compulsiva, os sons tornam-se um ruído sufocante.

Ao meu lado uma moça de uns 17 anos com os olhos vidrados na cena exclama baixinho repetidas vezes “Que da hora…”.

Fim da ação, as atrizes são aplaudidas em cena aberta pelas 60 jovens internas da Fundação Casa Chiquinha Gonzaga na Mooca.

Essa apresentação de Carne faz parte das atividades do projeto CARNE – PATRIARCADO E CAPITALISMO da Kiwi Cia de Teatro, contemplada pela 17a. edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e que eu tive o prazer de acompanhar.

Prazer???

As meninas vestem calça de moletom e camiseta branca, a maioria está de meia e chinelo. O nome escrito na meia. Logo percebe-se que há uma moda no jeito de arrumar o cabelo: faixinha – branca, rosa ou lilás – quase na testa, rabo de cavalo e uma franja de lado perto do olho. O cheiro de perfume e creme invadem a sala junto com as meninas.

Quando a peça começa percebo que algumas estão bem pouco simpáticas à atividade – aquela recusa de saída que tem qualquer adolescente. Mas nenhuma resiste ao convite das atrizes que revelam nosso cotidiano de mulher cena após cena. Em pouco tempo estavam todas ultra envolvidas, olhos quentes, comentários, risadas e aplausos.

Alguns momentos foram especialmente marcantes pra mim e acabam por revelar de onde vem o crime que fazem as meninas cumprirem pena nesta casa de “acolhida”. Explico.

Apesar de já ter visto a cena diversas vezes, ainda fico tomada durante o discurso sobre a ocupação do espaço público pela mulher entrecortado pelo choro de um bebê. Minha identificação com a contradição de sentimentos é imediata. Mas nessa tarde, ao meu redor, as lágrimas não vinham de identificação, mas de saudades… Muitas daquelas meninas já são mães. Ouvir aquele chorinho de bebê, com certeza, fez seus corpos ficarem frios e vazios. A vida ali começou bem cedo e a dureza da maturidade adiantada era revelada na reação calada e triste da jovem “infratora”.

A peça continua e os comentários de quem saca tudo e sabe muito bem do que fala a peça aumentam.

A cena agora é engraçada, as atrizes cantam músicas de cunho machista – Amélia, Garota Carioca, A nega lá em casa e por aí vai. Terminam com “Ai que mulher indigesta, indigesta. Merece um tijolo na testa!”. Todas riem muito, até que uma delas se vira para trás e comenta “É… não é mole, não. Vocês tão rindo de quê?”.

Se há consenso de que não é fácil ser mulher num mundo onde o machismo é tão incorporado à cultura que parece que ele não existe mais, imagina se essa mulher é uma adolescente em condições sociais precárias.

O crime pode ser opção, mas pode ser a única saída também. O castigo deve existir para inibir uma próxima investida ou para dar alternativas ao apelo do ganho fácil e arriscado, ao ganho infrator?

A maioria das meninas é presa (sim, presa) por tráfico de drogas – assim como nas casas de acolhida de meninos, assim como nas penitenciárias –, a reincidência é gigante e uma das assistentes pedagógicas diz que não vê relação com esse elevado índice de reincidência e o programa pedagógico que executa ali. Esse quadro parece não fazer o menor sentido!

Assim como há justificativas médicas, científicas e de saúde pública para a legalização do aborto, há também para a legalização das drogas, com a regulamentação do seu uso, produção e venda autorizadas com controle estatal, cobrança de impostos e tudo o mais.

Se esse é o maior crime cometido pelas/os infratoras/es brasileiras/os, parece que um primeiro passo para solução está bem na nossa frente.

Ao mesmo tempo, é impossível não perceber a inutilidade do sistema carcerário do nosso país! É óbvio que a experiência das meninas dentro da tal “casa de acolhida” está relacionada com a vida que terão saindo dali. Curso de artesanato não interessa e nem sustenta uma menina de 16, 17 anos!

E supondo que a jovem leve jeito para o artesanato, aprenda algumas técnicas durante seu tempo de “castigo” e voltando às ruas, queira vender suas obras em feiras livres da cidade. Não conseguirá… A prefeitura exige ficha de antecedentes criminais para autorizar a participação de expositores em feiras púbicas.

Quem é o criminoso aqui? Está claro: é o estado!

Por negligência com a população mais carente, por fingir que tem algum tipo de programa de “reabilitação” de cidadãs e cidadãos infratoras/es, por alimentar a perseverança do maior crime que acontece nesse país e que mata principalmente a população mais pobre e, finalmente, por fomentar a imagem de que as pessoas mais pobres, a população de rua, são coisas feias das cidades que merecem desaparecer nos mega projetos de revitalização do espaço público– processo que vivenciamos cotidianamente em São Paulo.

A situação de confinamento é questionável e só poderia ser útil se o tempo passado atrás das grades trouxesse, de fato, alguma perspectiva futura para aquelas jovens. Coisa que, infelizmente, está longe de acontecer.

Maysa Lepique

www.kiwiciadeteatro.com.br

Homens concentram 80% dos maiores rendimentos do país

9 set

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Apesar do ingresso cada vez mais frequente das mulheres no mercado de trabalho, a diferença de rendimento entre os trabalhadores do sexo masculino e feminino continua no país. Segundo a Pnad 2009 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), os homens representam 80% do total dos brasileiros com renda superior a 20 salários mínimos mensais –à época o equivalente a R$ 9.300,00.

Salários médio de mulheres ocupadas, segundo a Pnad

2004 R$ 613
2005 R$ 646
2006 R$ 705
2007 R$ 735
2008 R$ 758
2009 R$ 786

Os dados apontam que de 624 mil pessoas ocupadas que recebiam os melhores rendimentos no país, 503 mil eram homens e apenas 121 mil, mulheres. Elas recebiam, em média, 67,1% do que recebiam eles: R$ 786,00, enquanto os homens tinham rendimento médio de R$ 1.171,00. Somando os valores dos dois sexos, a média nacional de rendimento ficou em R$ 1.006,00. O levantamento exclui as pessoas que informaram não ter rendimento naquele ano.

A diferença de renda entre homens e mulheres fica mais evidente quando comparada a proporção dos trabalhadores, entre os dois sexos, que recebem mais de 20 salários mínimos. Enquanto 0,9% do total de homens com renda ganhavam mais de R$ 9.300,00 por mês no ano passado, apenas 0,3% delas conseguiram a mesma condição financeira.

A pesquisa do IBGE aponta ainda que 34,9% das mulheres ocupadas, com idade igual ou acima de 10 anos, recebiam até um salário mínimo –9,6 pontos percentuais a menos que a média dos homens. No Nordeste, essa média chega a 50%, enquanto no Sul o número não passa de 24%.

Salários médio de homens ocupados, segundo a Pnad

2004 R$ 964
2005 R$ 1.000
2006 R$ 1.076
2007 R$ 1.111
2008 R$ 1.142
2009 R$ 1.171

Levando em conta todas as mulheres em idade ativa, a partir de 10 anos, a Pnad 2009 revela que 77,7% das mulheres têm renda que não superam dois salários mínimos, chegando à marca de 88% no Nordeste. No sexo masculino, a média nacional foi de 64,4%.

Entre as unidades federativas do país, o menor salário das mulheres era pago no Piauí (R$ 541,00), e o maior no Distrito Federal (R$ 1.879,00). Já entre o sexo masculino, a menor média era de R$ 686,00, no Piauí, e a maior de R$ 2.239,00, no Distrito Federal.

Além de ganharem menos, as mulheres têm o dobro de participação entre as pessoas sem renda no Brasil. Enquanto 12,1% delas não tinham nenhum rendimento em 2009, entre eles a média era de apenas 6,4%.

Entretanto, levando-se em conta os dados da Pnad dos cinco anos anteriores, percebe-se que a diferença salarial vem caindo ano a ano. Em 2004, as mulheres com renda ganhavam, em média, R$ 613,00. Em meia década, o valor saltou 28%. Já entre os homens com renda, no mesmo período, os salários tiveram alta de 21% –em 2004 era de R$ 964,00. Nesse mesmo período, o rendimento médio do brasileiro cresceu 25%.

As moças do CEU Cidade Atlântica

18 ago

Estivemos neste final de semana no CEU Cidade Atlântica, em São Paulo, a convite da artista-educadora Adriana Dham. O grupo de teatro “Pé na Jaca”, orientado dentro do Projeto Vocacional por ela e apoiado pelo programa VAI, pretende fazer um trabalho com a comunidade de Pirituba sobre resgate de memória, depimentos e talvez, histórias de mulheres.

Fomos conversar com as moças do grupo sobre o trabalho das ATUADORAS. Contamos sobre o processo de construção da nossa peça, do porquê escolhemos depoimentos de mulheres, e de como nos tornamos feministas.

Foi muito bacana perceber que na nossa conversa já nasceu um novo compartilhamento de histórias de mulheres e o início da reflexão de que é necessário politizarmos a vida privada.

Além disso, o novo projeto das Atuadoras será sobre a construção do amor com foco nas adolescentes. Para isso, já convidamos o grupo “Pé na Jaca” para ser um de nossos parceiros neste novo trabalho.

Aproveitando: beijos para as queridas atrizes do CEU Vila Atlântica!

O corpo como outdoor

12 ago

Durante a copa do mundo, uma mulher desfrutou de seus minutos de fama: a paraguaia Larissa Riquelme. Descoberta/inventada pela mídia, ela foi durante algumas semanas notícia no Brasil. No entanto, houve um fato pouco noticiado na nossa imprensa. Durante o jogo entre Paraguai e Espanha, Larissa apareceu com uma tatuagem na qual se lia AXE em um de seus seios. A Unilever pegou carona na fama da modelo e pagou para ter uma de suas marcas divulgada na direção de onde iriam os olhares dos homens e mulheres ligados em futebol e em um devaneio erótico.

Na nossa sociedade ser é ser visto – visto na mídia. Mulheres emprestam seus corpos à publicidade: de cerveja, de perfumes, do que for, de nada, do que pagar bem, do que a deixar em evidência. Faz-me lembrar de uma frase em um espetáculo teatral da Cia. do Latão no qual uma personagem dizia: “No mundo da mercadoria, coisa má é não ser mercadoria”.

Homens consomem anúncios que prometem liberdade através de um carro, potência sexual ao beber uma cerveja, realização profissional ao ser cliente de determinado banco. Aos homens a promessa é de que serão ricos e de que eles não desejam mais nada a não ser uma bunda, alguns seios, uma mulher-objeto.

Adoraria ver o Carrefour veiculando um comercial com um homem de cueca e pau duro fazendo compras entre gôndolas. Talvez os homens reagissem com a mesma indignação que as mulheres sentiram ao ver as primeiras propagandas de cerveja com mulheres hiper-sexualizadas. Seria uma boa estratégia de sensibilização criar propagandas com visões tão limitantes dos homens como são a maior parte dos comerciais em relação as mulheres.

Ou talvez não leve a nada propor o mesmo veneno já que, na realidade, perdemos todos e todas com a apropriação de nossos corpos e desejos por um mercado que quer nos vender mais e mais produtos que não precisamos.

Por Daniele Ricieri

A menina quer estudar. Mamãe quer trabalhar. É possível?!

9 ago

A vida doméstica nos amarra. Seguem dois exemplos:

filme de Marcio Ramos

Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. Nesse mundo onde a mulher além de ser ótima mãe, presente, carinhosa, atenta, provedora de cuidados e educação também trabalha fora de casa, essa afirmação faz todo o sentido.
A maternidade, muitas vezes, parece incompatível com qualquer trabalho que não seja o doméstico. Há mulheres – cada vez menos, mas ainda há – que escolhem ficar em casa cuidando da cria e abandonam, por um tempo ou definitivamente, sua vida profissional.
Mas há muitas outras – umas porque precisam pagar as contas de casa e não têm opção e outras porque gostam – que não deixam seus trabalhos e aí que a coisa complica.
O trabalho, muitas vezes, pode ser estimulante e prazeroso. E o cuidado com as crianças pode ser igualmente prazeroso e gratificante. O que mata é a rotina.
Chego em casa às 19hs30 depois de quase duas horas de trânsito nessa cidade torturante. Helena já está dormindo. Chico espera para jantar. Ele deveria ir dormir às 20hs30, ela também. Bom, hoje, por conta do meu atraso, vamos ter que lidar com a troca de horários.
Janto com Francisco e lá pelas tantas tenho que apressá-lo, pois vai passar do horário de dormir – antes do sono, história e música. O pequeno se apressa e quando está terminando, Helena acorda.
Corro até o quarto e a encontro toda animada em pé no berço. Certo: vamos preparar a mamadeira e tentar conciliar o ritual dos dois.
Escovar os dentes do Chico, colocar o pijama, trocar a fralda da Helena e colocar seu pijama. Hoje teremos que pular a história, pois só nisso já chegamos em 20hs40…
Francisco reclama, mas compreende, doce que é. Helena, no entanto, depois de tomar toda a mamadeira ouvindo a música que já embalou seu irmão, está super acordada e briga pra não dormir.
Tento em vão niná-la. Continuo a música, ando com ela no colo pelo quarto, deixo tudo bem escurinho. Nada.
Pego o sling, mudo de quarto, tudo escuro e chupeta. Nada.
Coloco a bichinha no berço “abraçada” no travesseiro como seu pai indicou. Nada. Aí é que ela fica brava pra valer e começa a chorar. O colo é uma exigência.
Penso nos trabalhos que iria fazer assim que os dois dormissem, fico aflita, minhas costas começam a doer.
Sento com ela no colo e balanço como uma cadeira. Nada.
Desisto. Desço com ela e tento fazer alguma coisa que me distraia por uns minutos e a deixe mais sonada. Ela parece cada vez mais elétrica. Até que faz um coco. Ah… coitadinha… Estava com dor de barriga e eu achando que a menina lutava contra o sono… Assim começa o nível 1 da culpa: a mãe não entende sua bebê.
Subo com ela, troco a fralda, conversamos. Ela me olha nos olhos, profundamente. Sinto um amor delicioso, profundo e admirado. Como é comunicativa minha pequena de 9 meses!
Como é doce e linda! Pego-a de novo nos braços com carinho e cuidado, brinco com ela e digo que agora sim, hora de dormir.
Apago novamente as luzes e escolho uma outra música.

Nada! Ah!!!!
Ainda agitada, ainda empurrando com as pernas, agora está claro: luta mesmo contra o sono!
Já são quase 22hs e Helena, com os olhos vermelhos e pequenos, não quer dormir! E eu preciso e QUERO trabalhar!
A culpa passa para o nível 2: depois de passar o dia fora de casa trabalhando, quero continuar trabalhando! Como pode???
Não aguento mais essa luta e coloco a pequena no berço. Ela chora. Primeiro é manha. Depois é choro pra valer.
Francisco continua dormindo pesado…
Sento no sofá da sala e penso que é preciso que algum pediatra me ajude nessa jornada noite adentro. Sim, pois depois que ela finalmente dormir, sei que acordará algumas vezes durante a noite. Então, mesmo conseguindo fazê-la dormir, fico tensa esperando o próximo chorinho.
A culpa então eleva-se ao nível 3: como é duro cuidar de um bebê!!! Como minha paciência é curta! Eu deveria adorar ficar ninando a bichinha até a hora em que, finalmente, ela dormisse. Sim, eu não deveria reclamar. E cadê o pai dessa criança que não está aqui para me socorrer???
O pai está trabalhando. Claro! Afinal, é a renda do trabalho dele que banca a maior parte do orçamento da família. Então é justo que a divisão seja essa.
E eu, que ganho bem menos, cuido mais das crianças. Bem, não é todo dia essa luta pra dormir. A maioria das vezes é muito mais tranquilo. A pequena mama e dorme junto com Francisco às 20hs30 e eu sigo no computador até ser arrebatada pelo frio e pelo cansaço.
Mas hoje, que preciso ler um projeto importante, preciso começar a escrever outro e publicar uma ação… não tenho energia para mais nada a não ser me jogar na cama. Assim vou adiando, vou deixando pra mais tarde a posibilidade de aumentar meus trabalhos, minha renda… Assim, mesmo conscientes e desejosos de novas possibilidades de constituição de uma família, seguimos reproduzindo o velho formato.

Maysa Lepique – tentando ser mãe, atriz, diretora da cooperativa de teatro, feminista, bem informada, crítica e saudável

Cientistas descobrem gene cristão :: ótimo exemplo de ação artística

5 ago

Diálogos com adolescentes

31 jul

Ela, 12 anos. Ele acabou de completar 14.

Pergunto se estão namorando alguém:

– Não

– Não

Ah… e ficando com alguém:

– Não

– Não

– Se ela ficar com alguém, eu capo o cara.

Não contenho o riso. E só agora percebo que esqueci de contar que os dois são irmãos.

– Ah! Mas então no ano que vem ela vai poder ficar, já que você está na oitava série e já fica.

Ele espera um tempo e contra-argumenta:

– Não. Porque é diferente com menina.

Todos os meus alertas vermelhos piscando:

– Diferente como?

– Se ela ficar ficando ela vai ser chamada de puta.

Ela decide participar da conversa:

– É. E não existe “puto”.

Por Daniele Ricieri

Mulheres no Sumô

27 jul

Uma plataforma de terra com aproximadamente 50cm de altura em formato quadrangular, no topo um círculo com 4,65m de diâmetro. Em cada um dos lados do quadrado, um homem sentado. Duas garotas se aproximam, uma de cada lado, jogam sal na arena, se cumprimentam e lutam.

Neste final de semana aconteceu, em São Paulo, o Campeonato Brasileiro de Sumô. Tive oportunidade de acompanhar as lutas do feminino no domingo. Por aqui, mulheres e meninas, a partir dos 5 anos, competem profissionalmente.

É recente a criação da categoria feminina neste milenar esporte japonês. Só em 1996 aconteceu a primeira competição oficial para mulheres. Fora do Japão. Em solo japonês as mulheres não só não podem competir profissionalmente, como não podem se aproximar do Dohyô – a arena descrita no começo deste texto – por serem consideradas impuras.

O Sumô é um esporte repleto de preceitos religiosos. Embora sua origem não seja precisa, acredita-se que esteja ligada aos rituais xintoístas de colheita. A lenda conta que foi em uma luta de Sumô que o Deus soberano das ilhas japonesas foi escolhido. No Dohyô, a plataforma quadrada, simbolizaria a Terra e o círculo no meio, o céu. O solo portanto é considerado sagrado. E interditado às mulheres e suas impurezas.

A maior parte das culturas religiosas das quais participamos hoje tem, não raro, a mesma percepção do feminino como algo impuro, distante do sagrado, profanador. Estou pensando nas três religiões monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo. Ora, para não nos alongarmos, é suficiente lembrarmos que em nenhuma destas religiões as mulheres podem ser lideres espirituais: não há Papisa, uma Imã ou uma Rabina.

Sabemos também de outras várias religiões, cujos “estados” não ganharam a guerra, que viam na mulher exatamente o oposto. Os Celtas, por exemplo, eram matriarcais e confinavam à mulher a sabedoria da colheita e da vida.

Não é pequena a influencia da religião em nossas vidas e costumes. Alguns dogmas são tão fortemente naturalizados que nem sabemos o que religião tem a ver com o fato de  uma mulher não pode lutar sumô. No domingo, uma das competidoras me disse que no Japão elas não competiam profissionalmente porque “é a tradição”. Taí uma Deusa bem em voga ultimamente: a Tradição. Deusa cruel com aqueles que ousam perguntar: de onde é que ela vem mesmo?

Por Daniele Ricieri

Geni e os rottweilers

15 jul

Já faz algumas semanas que homens e mulheres repercutem o noticiário em suas conversas informais falando sobre a morte de Eliza Samudio, a ex-namorada do goleiro Bruno. Como pessoas civilizadas que somos, especialmente nos primeiros momentos de uma conversa, começa-se o assunto destacando como o crime foi bárbaro e lembrando o interlocutor de um ou outro detalhe mórbido do como teria sido o assassinato.

Partindo deste início convencional, as conversas tomam vários outros rumos. Queremos destacar dois deles.

Algumas pessoas ao contarem a história dão destaque para o ponto comercial do incidente: fazem as contas para saber quanto o Flamengo perderá com o escândalo. Lembram que assim que a suspeita de assassinato veio à tona, o clube carioca prontamente contratou um dos melhores advogados da cidade para proteger seu jogador. Afinal, é assim que os times ganham dinheiro: investem em um talento e depois vendem o passe para outro clube. Ficando a importante questão: quanto perde o Flamengo?

O outro destino da análise de cada um/uma da morte de Eliza é ainda mais comum que o anterior: o questionamento do caráter da vítima. E é neste ponto que vamos nos debruçar um pouco.

“Nada justifica o que foi feito mas…”.

Mas “ela era uma garota de programa”.

Mas “essas mulheres escolhem o momento em que estão ovulando para sair com estes caras”.

Mas “era uma interesseira”.

Mas “ela não era flor-que-se-cheire”.

Mas “ela engravidou de propósito”.

Mas “ela gostou da fama”.

E tantos outros “mas”.

Evidentemente culpar a vítima ou levantar suspeitas a respeito de seu caráter não é uma estratégia nova. Sobretudo quando a insinuação parte do algoz.

Ficando aqui uma provocação: do que nos defendemos quando nos associamos aos amigos de Bruno e consideramos que, de alguma forma, Eliza mereceu morrer? Não temos motivos pessoais para desejar nada de mal a Eliza. Talvez isso nos leve a pensar que não é de Eliza que nos defendemos e sim, do que este triste fato diz sobre nós coletivamente.

Uma das hipóteses possíveis seria pensarmos que aquele-tipo-de-mulher revela as fraquezas de um-tipo-de-homem que não queremos ver ameaçado. Para que tudo se mantenha como está nas nossas vidas e sociedade (mesmo estando ruim até demais) temos que considerar que as mulheres exercem de tal forma um poder macabro sobre os homens, poder do qual eles não têm defesa – não porque sejam fracos, mas porque “são só humanos” – que merecem ser punidas.

Este episódio Bruno e sua ex-namorada em algum lugar ecoa em nós que um homem está constantemente lutando contra tentações, portanto é um herói e que as mulheres são as culpadas caso eles falhem. Se ele procurou uma amante, sua mulher não deveria ser boa de cama. Se ele foi infiel à esposa, sua amante deve tê-lo enlouquecido. Se ele engravidou uma mulher, ela deve ter feito de propósito. Se ele não é maduro o suficiente para se responsabilizar por seus atos, ela mereceu morrer.

Talvez seja insuportável, na nossa sociedade patriarcal e machista, olharmos para as falhas destes homens. Mais fácil escolher a culpada.

Por Daniele Ricieri