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o que diz o professor

18 dez

Acabo de registrar a reclamação abaixo no site do cursinho pré vestibular onde estou matriculada.

Reclamação referente ao professor de inglês DANIEL A.

Durante a aula, apresentando determinado conteúdo, o professor Daniel A. disse:

– Eu bato na minha mulher na cabeça, na perna, nas costas…

Imediatamente perguntei: “Professor, você disse que bate na sua mulher?” e ele, sorrindo, respondeu “Sim!”. Eu disse que bater em mulher é crime e que ele não devia fazer brincadeira com isso. Ele parou por um minuto, sorriu. Vários alunos começaram a rir e alguém comentou “mas se ela gosta de apanhar…” e o professor acenou com a cabeça em consentimento. Depois disse que falaria a aula toda sobre como ele odeia sua mulher, mas meu comentário o deixara constrangido. Então, eu disse que ele podia seguir com sua aula e me retirei, ao que ele agradeceu!

Acho totalmente inadmissível que uma instituição de ensino fique indiferente a uma situação como essa, afinal um professor é modelo para seus alunos, ainda mais quando são adolescentes e o professor é jovem, simpático e a identificação pode ser muito forte. O que o professor Daniel A. fez foi incitar a violência contra a mulher, ainda mais ontem, quando a mídia noticiou a pena do goleiro Bruno de apenas 4 anos!!! A violência contra a mulher vem crescendo assustadoramente e com graus de crueldade absurdos. Este é um assunto extremamente sério de violação de direitos humanos que não pode ser, de modo algum, tratado como brincadeira, ainda mais dentro de uma sala de aula.

Aguardo um posicionamento da instituição em relação ao ocorrido o mais breve possível. Maysa Lepique

Não é incrível???

O blog das ATUADORAS publicará a resposta da instituição.

Sabe quem pode mudar o mundo? Meninas!

23 out

Campanha Girl Effect

Ainda somente em inglês… Mas vale muito a pena assisitir:

“Que da hora…” ou O CRIME DO ESTADO

14 out

Na primeira cena da peça vemos duas atrizes entretidas com uma infinidade de utensílios domésticos – ferro de passar, batedeira, panela, talheres, secador de cabelo, espelho, bacias – e objetos femininos – pulseiras, colares. O músico pontua com a percussão os sons de tanta atividade. A cena se desenrola num crescendo, a movimentação das atrizes vai ficando cada vez mais frenética e compulsiva, os sons tornam-se um ruído sufocante.

Ao meu lado uma moça de uns 17 anos com os olhos vidrados na cena exclama baixinho repetidas vezes “Que da hora…”.

Fim da ação, as atrizes são aplaudidas em cena aberta pelas 60 jovens internas da Fundação Casa Chiquinha Gonzaga na Mooca.

Essa apresentação de Carne faz parte das atividades do projeto CARNE – PATRIARCADO E CAPITALISMO da Kiwi Cia de Teatro, contemplada pela 17a. edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, e que eu tive o prazer de acompanhar.

Prazer???

As meninas vestem calça de moletom e camiseta branca, a maioria está de meia e chinelo. O nome escrito na meia. Logo percebe-se que há uma moda no jeito de arrumar o cabelo: faixinha – branca, rosa ou lilás – quase na testa, rabo de cavalo e uma franja de lado perto do olho. O cheiro de perfume e creme invadem a sala junto com as meninas.

Quando a peça começa percebo que algumas estão bem pouco simpáticas à atividade – aquela recusa de saída que tem qualquer adolescente. Mas nenhuma resiste ao convite das atrizes que revelam nosso cotidiano de mulher cena após cena. Em pouco tempo estavam todas ultra envolvidas, olhos quentes, comentários, risadas e aplausos.

Alguns momentos foram especialmente marcantes pra mim e acabam por revelar de onde vem o crime que fazem as meninas cumprirem pena nesta casa de “acolhida”. Explico.

Apesar de já ter visto a cena diversas vezes, ainda fico tomada durante o discurso sobre a ocupação do espaço público pela mulher entrecortado pelo choro de um bebê. Minha identificação com a contradição de sentimentos é imediata. Mas nessa tarde, ao meu redor, as lágrimas não vinham de identificação, mas de saudades… Muitas daquelas meninas já são mães. Ouvir aquele chorinho de bebê, com certeza, fez seus corpos ficarem frios e vazios. A vida ali começou bem cedo e a dureza da maturidade adiantada era revelada na reação calada e triste da jovem “infratora”.

A peça continua e os comentários de quem saca tudo e sabe muito bem do que fala a peça aumentam.

A cena agora é engraçada, as atrizes cantam músicas de cunho machista – Amélia, Garota Carioca, A nega lá em casa e por aí vai. Terminam com “Ai que mulher indigesta, indigesta. Merece um tijolo na testa!”. Todas riem muito, até que uma delas se vira para trás e comenta “É… não é mole, não. Vocês tão rindo de quê?”.

Se há consenso de que não é fácil ser mulher num mundo onde o machismo é tão incorporado à cultura que parece que ele não existe mais, imagina se essa mulher é uma adolescente em condições sociais precárias.

O crime pode ser opção, mas pode ser a única saída também. O castigo deve existir para inibir uma próxima investida ou para dar alternativas ao apelo do ganho fácil e arriscado, ao ganho infrator?

A maioria das meninas é presa (sim, presa) por tráfico de drogas – assim como nas casas de acolhida de meninos, assim como nas penitenciárias –, a reincidência é gigante e uma das assistentes pedagógicas diz que não vê relação com esse elevado índice de reincidência e o programa pedagógico que executa ali. Esse quadro parece não fazer o menor sentido!

Assim como há justificativas médicas, científicas e de saúde pública para a legalização do aborto, há também para a legalização das drogas, com a regulamentação do seu uso, produção e venda autorizadas com controle estatal, cobrança de impostos e tudo o mais.

Se esse é o maior crime cometido pelas/os infratoras/es brasileiras/os, parece que um primeiro passo para solução está bem na nossa frente.

Ao mesmo tempo, é impossível não perceber a inutilidade do sistema carcerário do nosso país! É óbvio que a experiência das meninas dentro da tal “casa de acolhida” está relacionada com a vida que terão saindo dali. Curso de artesanato não interessa e nem sustenta uma menina de 16, 17 anos!

E supondo que a jovem leve jeito para o artesanato, aprenda algumas técnicas durante seu tempo de “castigo” e voltando às ruas, queira vender suas obras em feiras livres da cidade. Não conseguirá… A prefeitura exige ficha de antecedentes criminais para autorizar a participação de expositores em feiras púbicas.

Quem é o criminoso aqui? Está claro: é o estado!

Por negligência com a população mais carente, por fingir que tem algum tipo de programa de “reabilitação” de cidadãs e cidadãos infratoras/es, por alimentar a perseverança do maior crime que acontece nesse país e que mata principalmente a população mais pobre e, finalmente, por fomentar a imagem de que as pessoas mais pobres, a população de rua, são coisas feias das cidades que merecem desaparecer nos mega projetos de revitalização do espaço público– processo que vivenciamos cotidianamente em São Paulo.

A situação de confinamento é questionável e só poderia ser útil se o tempo passado atrás das grades trouxesse, de fato, alguma perspectiva futura para aquelas jovens. Coisa que, infelizmente, está longe de acontecer.

Maysa Lepique

www.kiwiciadeteatro.com.br

Diálogos com adolescentes

31 jul

Ela, 12 anos. Ele acabou de completar 14.

Pergunto se estão namorando alguém:

– Não

– Não

Ah… e ficando com alguém:

– Não

– Não

– Se ela ficar com alguém, eu capo o cara.

Não contenho o riso. E só agora percebo que esqueci de contar que os dois são irmãos.

– Ah! Mas então no ano que vem ela vai poder ficar, já que você está na oitava série e já fica.

Ele espera um tempo e contra-argumenta:

– Não. Porque é diferente com menina.

Todos os meus alertas vermelhos piscando:

– Diferente como?

– Se ela ficar ficando ela vai ser chamada de puta.

Ela decide participar da conversa:

– É. E não existe “puto”.

Por Daniele Ricieri