Não sou feminista. Não milito no movimento feminista.
A afirmação ainda ecoa e traz uma forte reflexão sobre o posicionamento que adotamos em relação ao nosso trabalho.
Dizer que fazemos um teatro feminista ou que somos um coletivo de mulheres interessadas em denunciar violências contra mulher, ao mesmo tempo que nos dá identidade e agrega parcerias, provoca estranhamento e revela preconceitos, visões antigas e equivocadas sobre o assunto.
Durante o ciclo de lançamento do livro PEÇA PARA MULHERES – História e poesias do espetáculo teatral mulher a vida inteira, principalmente na Livraria da Vila onde fizemos um bate papo e na roda de conversa do Teatro Coletivo, ficou evidente como a discussão a cerca da situação contemporânea da mulher é polêmica, séria, necessária e rechaçada.
Mais do que interesse pelo projeto ATUADORAS em si, as pessoas que participaram desses eventos tinham interesse em saber de suas razões de ser e de suas conseqüências, como por exemplo, a restrição de público no espetáculo mulher a vida inteira – apresentado exclusivamente para mulheres. O princípio da discussão parece ser motivado pela curiosidade, mas aos poucos, uma identidade entre mulheres acontece e a cumplicidade entorno do assunto se estabelece.
É nesse momento que o leque de abordagens se amplia e ganha dimensões imprevistas pelas proponentes da discussão. Pois, as mulheres iniciam sempre seus posicionamentos a partir de suas experiências de vida. E todas – regra que parece não ter exceção – têm uma experiência para ser compartilhada, transformando questões privadas em problemas sociais e coletivos.
O nome que damos a atitude de reivindicar direitos, denunciar violências, e até mesmo perceber diferenças sem sentido, como naturalizações de comportamentos socialmente construídos, não interessa de fato. Militar no movimento feminista…
Mas o que é o movimento feminista hoje?
Muito diferente do que um movimento datado e radical, o feminismo vem, ao longo dos anos, contracenando com o mundo onde vivem as mulheres, com as dificuldades que temos que encarar por sermos mulheres. E, se movimento é a coletivização de ações e ideais, no caso das mulheres, ele é mais que necessário, pois nossa voz ouvida solitariamente não tem valor algum! E não interessa de onde falamos.
Ao reclamar a falta de uma dramaturgia com personagens femininas, estamos reclamando a falta de um lugar na história da literatura e da arte dramática.
Ao criar espetáculos que tenham como protagonistas mulheres perseguidas e sumidas durante a ditadura militar no Brasil, estamos jogando luz nos silêncios da história.
Ao definir a religião como inimiga, estamos definindo um campo de ação.
Ao filmar depoimentos de mulheres e organizá-los em um documentário, estamos dando voz às mulheres, publicizando histórias de vida que revelam uma condição social do tempo em que vivemos.
Assim, nossa bandeira é nossa própria obra. Mais do que lançar manifestos e participar de passeatas, nos interessa o contato profundo que a arte é capaz de provocar, nos interessa o florescimento de cada relação estabelecida a partir de uma experiência compartilhada.
Acreditamos – e temos tido retorno positivo dessa crença – que brigar pela transformação do mundo em que vivemos em um lugar mais justo, humano e solidário, passa pela transformação de cada corpo de um grupo social. É preciso que eu identifique realidades impostas onde estou imersa, questionando minha própria atuação.
É preciso desnaturalizar o papel de vítima, a fragilidade, a incapacidade de organização coletiva, o instinto maternal e amoroso. Nada disso é natural da mulher.
É preciso que eu mate o “papai do céu” e seja solidária às “mamães da terra”, é preciso romper com esse conceito burguês de paz assistida por câmeras de segurança que só garantem a manutenção de um estado de ameaça, onde cada ser não deve ser diferente do padrão estabelecido e vendido.
Sabendo das múltiplas possibilidades de construção da minha identidade, posso compor o coletivo no momento da ação.
Não há lugar proibido às mulheres. Mas estamos faltando em diversos lugares, inclusive no lugar de plenitude de gozo dos direitos humanos.
Maysa Lepique