No começo de dezembro, o elenco da peça Mulher a vida inteira realizou um evento na Penitenciária Feminina de Salvador, a convite da Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado da Bahia, com apoio do Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministério da Cultura.
Foram 4 dias intensos de trabalho que começou com uma apresentação da nossa peça e terminou com outra apresentação, dessa vez de um grupo de 14 mulheres detentas na Penitenciária, resultado da oficina de três dias que oferecemos no presídeo.

Nesse momento, a Penitenciária tem 130 mulheres internas, a maioria por tráfico de drogas, e aguarda reforma de ampliação – nas delegacias da cidade, mais de 70 mulheres esperam por uma vaga.
Há 9 anos, a pedagoga Silvana Maria Selem Gonçalves dirige a Penitenciária Feminina que oferece uma ampla variedade de cursos e atividades para as internas. Além disso, a unidade conta com duas celas para encontros íntimos das internas que antes de começarem a receber visitas de parceiros ou parceiras, passam por exames médicos e recebem aplicações de anti-concepcional (no caso de casais heterossexuais).
A administração da penitenciária fornece material para que as internas possam confeccionar e escolher o modelo de seus uniformes, todos amarelos. Mas, diferente do que vimos em São Paulo, quem cuida da cozinha é uma empresa terceirizada, uma vez que o trabalho não remunerado das internas é considerado trabalho escravo pela Comissão de Direitos Humanos.
A cidade de Salvador é escala de vôos que saem da América Latina em direção a Europa, por isso, há muitas mulheres estrangeiras na Penitenciária. A consequência disso é que nossa oficina foi falada em 4 línguas! Além do português: espanhol, inglês e francês. Argentinas, romenas, venezuelana, cabo-verdiana, brasileira casada com mulçumano e mulheres de Salvador que estão ali pelos mais diversos crimes.
A proposta da oficina era discutir a identidade da mulher e construir pequenas cenas baseadas em depoimentos pessoais para serem apresentadas ao final do período de trabalho. Partimos da costrução de um mapa onde as internas iam dizendo palavras que se relacionassem com nosso tema central a mulher.

Mesmo com tanta diversidade, a discussão a respeito da identidade da mulher era coesa e o grupo todo concordava com a maioria das ponderações feita por cada uma.
Diferente da apatia que percebemos durante a apresentação da peça Mulher a vida inteira, o grupo que participou da oficina mostrou-se muito envolvido com a proposta, mesmo em número reduzido de mulheres.
O resultado que conquistamos juntas foi muito emocionante: um quarteto de cenas explorando os assuntos definidos pelo nosso mapa, introduzido por falas carregadas de identidade e cultura particular e fechado com uma canção africana sugerida pelas internas que cantam no coral.
Independente da quantidade de participantes, o fruto resultante da oficina é extremamente estimulante, pois revela como é acertada a avaliação das Atuadoras de que a mulher privada de sua liberdade usufrui profundamente de um trabalho que discuta sua identidade de mulher.
Maysa Lepique
Assisti a peça e posso dizer que foi uma das encenações mais marcantes de toda a minha vida. Foi fantástica !!!
O resultado de pouco tempo de trabalho foi realmetne incrível.
Foi aproveitada, ao máximo, a diversidade.
Parabéns !!!!!
Espero um dia conseguirmos fazer algo similar aquii no RS.
Lamento o fato de que a atuação foi apresentada para poucas autoridades, atividades como essa deveria ser intensamente divulgada.
Letícia Neves (ex- Conselheira Penitenciária do Estado do RS)