Representei as ATUADORAS no período de 14 a 19 de julho no primeiro Vértice Brasil – encontro e festival de teatro feito por mulheres – em Florianópolis, SC.
O Vértice aconteceu por iniciativa e coordenação geral de Marisa Naspolini, do departamento de Artes Cênicas da UDESC e contou com a participação de Jill Greenhalgh (País de Gales, Cardiff Theatre Laboratory), Julia Varley (Dinamarca, Odin Teatret), Leo Sykes (Inglaterra/Brasília, Udigrudi) e Ana Cristina Colla (Campinas, LUME); além de mulheres do teatro e performance de vários Estados brasileiros (Brasília, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina).
O Vértice foi a primeira versão brasileira do Magdalena Project, rede internacional de teatro e performance feitos por mulheres e propunha oficinas, palestras, peças teatrais e demonstrações de trabalho das participantes (onde mostrei uma cena da peça “Mulher a vida inteira”).
A idéia de criar um espaço para mulheres do teatro trocarem experiências e criar coisas juntas surgiu num encontro de grupos (todos dirigidos por homens) no Odin Teatret. As mulheres começaram a pensar num encontro só delas, sem os diretores, e assim Jill deu início ao Magdalena Project, em 1986, no País de Gales.
Nesses 22 anos, mais de 100 encontros internacionais já aconteceram em todo o mundo formando uma rede de mulheres do teatro e da performance. Nessa rede, mais importante que os nós, são as malhas entre eles, capazes de criar novas conexões.
O sucesso do Projeto Magdalena se deve a alguns fatores: primeiro, nunca houve relação de posse com o projeto, cada mulher tem liberdade para realizá-lo em seu país, sem regras. Depois, há uma atitude generosa de responsabilidade que não intenciona lucro próprio com o evento, mas algo maior, que dá contexto e critérios variados aos trabalhos das mulheres.
A estrutura do Magdalena é horizontal, diferente das estruturas patriarcais que são verticais. Nessa estrutura horizontal não há lideranças, há pessoas escolhendo assumir responsabilidades em diferentes momentos. A rede em oposição à fortaleza (patriarcal) pode representar uma estrutura muito forte, onde o conhecimento e a informação se espalham como água – ripple effect.
Jill, falando sobre o Magdalena, pergunta se existe uma linguagem feminina no teatro, qual é essa linguagem. Na verdade, as artistas, mulheres, são muito diferentes entre si. Mas essas muitas vozes e linguagens precisam de espaço para serem ouvidas! Cada mulher tem suas experiências políticas, sociais e biológicas. A arte tem que ser fiel a essas experiências, que são particulares às mulheres.
Ela conta que o termo feminista não era forte nem necessário no início do Magdalena, mas hoje é, pois passou a ser um termo rechaçado, como se a causa estivesse ultrapassada.
Julia Varley conta que o Magdalena nunca esteve embasado em uma ideologia, mas em interesses pessoais.
Aqui faço relação com o trabalho das ATUADORAS, que surgiu do diálogo de motivações pessoais das atrizes e a realização da dimensão social do problema através de dados estatísticos de violências e violações contra os direitos humanos das mulheres.
Assim, nosso espetáculo e os projetos que estão por vir, olham para cada uma das mulheres com quem podemos dialogar, pois acreditamos que sem empoderar-se da própria história, a mulher não pode ampliar sua luta para além das paredes de sua casa. O que está em jogo nesse momento é a nossa identidade. Talvez, não importe tanto responder à pergunta “o que é ser mulher?”, contanto que se possa viver com plenitude essa experiência, usufruindo da garantia do cumprimento de nossos direitos humanos.
E quanto à nossa opção de não ficar em cartaz com a peça e ir ao encontro de mulheres que raramente têm oportunidade de irem ao teatro, reproduzo uma fala da Julia Varley: depois do 1o. encontro do Magdalena, vários outros começaram a acontecer por vários países, fazendo com que o Projeto não tivesse um centro, uma sede. Todas nós escolhemos trabalhar na periferia, é nossa escolha profissional, fora do centro. Essa periferia que escolhemos, passa a ser o nosso centro, que forma uma rede. A atriz está fora do equilíbrio, fora do centro, e encontra o risco que a mostra como deve continuar, porque a faz pensar.
mais sobre o Vértice Brasil: www.verticebrasil.net/portugues/index.html
mais sobre o Magdalena: www.themagdalenaproject.org
Maysa Lepique
