do livro MULHERES: O GÊNERO NOS UNE, A CLASSE NOS DIVIDE, de Cecília Toledo
“Apesar de ter criado as condições para a emancipação, o capitalismo acirrou a opressão da mulher, ao combiná-la com a exploração e a dupla jornada de trabalho e ao criar novas formas de opressão. Foi o modo de produção que assentou de fato as bases objetivas para a liberação da mulher, ao inseri-la na classe operária, a força social que, por sua posição estrutural no processo de produção em seu conjunto, é a única que tem condições de enfrentar e destruir o capitalismo. A emancipação da mulher, assim como de todos os setores oprimidos, depende do desenvolvimento das forças produtivas, estagnadas no capitalismo.
Por outro lado, devemos lembrar que é impossível emancipar a mulher enquanto ela for escrava do lar. A emancipação da mulher depende de uma política consciente por parte do Estado de tomar para si as tarefas, que têm a ver com a reprodução da força de trabalho. Isso significa a instalação serviços públicos de boa qualidade, como creches, escolas, lavanderias, restaurantes, confecções, para que a sociedade tome para si as tarefas domésticas, o que exige um desenvolvimento das forças produtivas que permita esse deslocamento de recursos.”
uma primeira relfexão sobre a leitura – Maysa Lepique
A discussão central do livro é que em uma sociedade de classes, capitalista, é impossível haver igualdade entre os gêneros, uma vez que essa estrutura de produção só se aproveitou do esquema patriarcal da superioridade do homem, e acirrou a opressão sobre a mulher. Sendo assim, a luta das mulheres, mais do que pela igualdade de gêneros, deve ser pelo fim do capitalismo.
Eita monstro gigantesco! E quem é de fato esse inimigo? Eu fico pensando se é possível em nosso contexto atual, pensar em lutar contra o capitalismo que consegue englobar tudo e globalizar tudo. Até mesmo nossos meios de produção artística: seria possível produzir peças, por exemplo, que tivessem não só em seu conteúdo, mas também na forma e produção, alternativas ao esquema do capital? Seja para captação, seja para aluguel de teatro ou sala de ensaio, seja para libarar a bilheteria…
Esse ano, o tema da Marcha Mundial das Mulheres foi exatamente esse: não haverá igualdade de gênero enquanto houver capitalismo.
Mas, o que vejo durante a realização das apresentações da peça Mulher a vida inteira, são mulheres perdidas de si mesmas, que não ousam questionar a própria realidade, a violência que sofrem, a dupla jornada de trabalho, o abandono… Como falar de luta de classes ou guerra ao capitalismo quando nem sei ao certo quem sou.
Quem vem primeiro nessa luta? Fica claro dentro da discussão do livro como o capitalismo potencializa a opressão sobre a mulher, como aumenta tanto as discriminações que já sofria em sociedade patriarcal. Mas, talvez por isso mesmo, seja necessário priorizá-la para que haja sensibilização para a própria condição. Assim, mais fortalecida de si mesma, a mulher pode tomar consciência de sua classe e descobrir os mecanismos que a oprimem.
Editora Sundermann, 2a. edição, São Paulo, 2008.