Realizamos ontem nossa última apresentação desta primeira temporada do espetáculo “Mulher a Vida Inteira” contracenando com quase 80 mulheres presas na Penitenciária Sant’Ana. Começo tentando descrever a emoção que foi este encontro por uma combinação de fatores: foi nossa última apresentação; Marina, Bia e Nara, mulheres da nossa equipe, foram conosco e somaram tanto; e nos esperava, desejantes, mulheres encarceradas.
Diferentemente dos outros locais, arrumamos o cenário e nos aquecemos já na presença delas, o que eu sempre acho produtivo porque de saída formamos um vínculo e desmistificamos o espetáculo teatral. Enquanto arrumávamos as coisas, entrou correndo no salão uma presidiária segurando um papel na mão: as outras começaram a bater palmas e a gritar e entre o tumulto compreendemos falas como “liberdade já”. Aos poucos nos explicaram o que estava acontecendo. Era uma moça paraguaia que havia sido presa em uma batida policial de combate ao trabalho escravo, ela foi presa como cúmplice. O papel que ela recebeu, entregue por outra presa trabalhadora da administração da penitenciária, era o alvará de liberdade que atestava sua inocência e possibilitava a ela sair da prisão naquele instante.
Tudo tão tumultuado, tão no lugar do absurdo: no meio do dia, das atividades, um papel, esperado a todo minuto, entra em cena contendo um destino. Bia conversou com elas e perguntou se elas tinham a oportunidade de acompanhar os seus processos judiciais e se sabiam aproximadamente quando poderiam receber o tal alvará. Elas responderam que a vida ali “é na emoção”, que a grande maioria não tem advogados e que não sabem nada sobre o próprio caso. Estão alienadas do próprio processo, do próprio destino.
Depois da peça, na conversa, outra presa que, soubemos depois, estava condenada por homicídio, nos perguntou se tivemos medo de ir lá fazer a apresentação. Respondemos algumas de nós. E eu fiquei remoendo aquela pergunta. Ela queria saber como socialmente elas eram vistas, como a gente as via, como elas eram de fato. Ela disse que na prisão elas não tem nada para fazer e que refletem muito sobre a vida, e falaram como foi tocante a cena final do espetáculo, o conto indígena da mulher que refletia sua imagem no rio e sobre sua trajetória no mundo.
Percebi que a situação de confinamento que impossibilita a visão objetiva de si _ não há espelhos lá dentro_, impossibilita sobretudo a visão subjetiva: não há um outro que a ajude a se resignificar. O pedido era para que disséssemos o que estávamos vendo que ela não via, era para dizermos quem era ela.
Por Daniele Ricieri como um primeiro relato
Olá queriai parabenizar vocês pela densidade e beleza do relato sobre a experiência com as mulheres encarceradas.
abraços