Nos dicionários, a palavra “homem”, no sentido de “ser humano do sexo masculino”, costuma ser conotado com traços humanos fortemente valorizados – coragem; determinação; vigor sexual; força física e moral, etc. O termo raramente é associado à união com a mulher. Para tal, a língua dispõe de outro signo: “marido”.
Ao contrário, o termo “mulher” é fortemente polissêmico, servindo tanto para referir-se ao biológico – no qual são centrais as características ligadas à reprodução da espécie – quanto à “companheira conjugal” ou “amante” do homem, assumindo parte da sua significação no contexto de relação/dependência ao seu termo oposto – homem.
As conotações habituais e os campos semânticos aos quais o vocábulo “mulher” é associado relacionam-se sobretudo com o sexo, beleza física e traços humanos poucos valorizados – fraqueza, leviandade, etc. [Houaiss: 1975.]
Nesse sentido, a língua encobre o fato de que a mulher foi submetida pelo homem devido à capacidade produtiva e reprodutiva, e não a uma pretensa inferioridade natural.
do livro
A LINGUAGEM ESCRAVIZADA – LÍNGUA, HISTÓRIA, PODER E LUTA DE CLASSES
de Florence Carboni e Mário Maestri